segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O que nos diz um bilião de dólares sobre quem governa o mundo

28.09.2026


Ed Pomfret


A Tesla, o motor de grande parte da sua riqueza, funciona com subsídios públicos, incentivos fiscais e estruturas regulatórias que as suas próprias empresas passaram anos a adaptar. O bilião de Musk não se materializa pela genialidade. É extraído de sistemas que os trabalhadores construíram, que os governos subsidiaram e que o público agora é convidado a aplaudir.








Elon Musk está prestes a tornar-se o primeiro bilionário do mundo hoje, após a estreia pública da sua empresa de foguetes e IA, a SpaceX.





Fiquemos com este número por um momento. Um bilião de dólares. Se alguém gastasse um milhão de dólares todos os dias, levaria dois mil e setecentos anos a gastar um bilião. É mais do que o PIB total da Argentina ou da Nigéria. É uma cifra tão grande que os nossos cérebros não estão realmente preparados para a processar como algo real.





Segundo a Oxfam, 60% da riqueza bilionária global não é "ganha" em nenhum sentido da palavra que o leitor ou eu reconheceríamos, mas deriva de herança, poder de monopólio ou ligações de compadrio.





Segundo a própria conta da UBS [Union Bank of Switzerland], a grande transferência de riqueza está a acelerar, com um recorde de US$ 297,8 mil milhões a serem transferidos para apenas 91 herdeiros em 2025. A própria riqueza de Musk não disparou por causa de alguma nova invenção, mas por uma reavaliação no mercado privado da SpaceX e da sua empresa de IA xAI, uma fusão no papel que elevou o seu património líquido de 500 mil milhões para 800 mil milhões em apenas quatro meses.





A Tesla, o motor de grande parte da sua riqueza, funciona com subsídios públicos, incentivos fiscais e estruturas regulatórias que as suas próprias empresas passaram anos a adaptar. O bilião de Musk não se materializa pela genialidade. É extraído de sistemas que os trabalhadores construíram, que os governos subsidiaram e que o público agora é convidado a aplaudir.





No início deste ano — enquanto as suas empresas detinham milhares de milhões em contratos governamentais — Musk desempenhou um papel dentro do governo dos EUA, gerindo o chamado Departamento de Eficiência Governamental. O DOGE demitiu os reguladores, esvaziou as agências e desmantelou as estruturas de supervisão que, de outra forma, poderiam ter feito perguntas embaraçosas às suas próprias empresas.





Um modelo de Yale calculou que as atividades políticas de Musk custaram à Tesla entre um milhão e 1,26 milhões de vendas de veículos nos EUA, enquanto americanos furiosos boicotavam o fabricante de carros elétricos. Ele aguentou o impacto e continuou, o que mostra quanto o acesso valia para ele. Isto é captura regulatória como modelo de negócio, disfarçado de serviço público.





Mas não se trata de um homem e da sua riqueza excessiva. É sistémico, e o mesmo padrão repete-se em todas as regiões.





Na África do Sul, os irmãos Gupta passaram anos tão profundamente enraizados no governo de Jacob Zuma que uma comissão judicial concluiu que o próprio Estado tinha sido capturado, com nomeações e contratos de gabinete direcionados para servir interesses privados.





Na Índia, Gautam Adani construiu uma das maiores fortunas do mundo em sintonia com a sua proximidade com Narendra Modi, conquistando contratos estatais e concessões de infraestruturas à medida que o seu património líquido disparava, enquanto aqueles que chamavam a isso capitalismo de compadrio eram ignorados.





No México, Carlos Slim tornou-se um dos homens mais ricos do mundo quase da noite para o dia quando o governo de Salinas privatizou o monopólio estatal de telefones e lho vendeu, entregando um ativo público a uma fortuna privada que domina as telecomunicações do país desde então.





Os bilionários têm 4 000 vezes mais hipóteses de ocupar cargos políticos do os que cidadãos comuns, e onde não ocupam cargos diretos, compram quem o faz. Quando a riqueza se concentra a essa velocidade, a democracia revela-se como uma farsa.





Entretanto, o mundo que produziu essa riqueza continua como está. O Relatório Mundial sobre a Desigualdade, baseado no trabalho de 200 investigadores, descobriu que a metade mais pobre da humanidade detém pouco mais de 2% da riqueza global, enquanto menos de 60 000 pessoas no topo controlam três vezes mais do que toda essa metade inferior junta.





Este contexto não pode ser separado da história da riqueza de Musk. Os sistemas que canalizam dinheiro para cima a uma velocidade inacreditável são os mesmos que subfinanciam a saúde pública, sobrecarregam os países pobres com dívidas das quais não podem escapar e deixam as comunidades sem o básico que os governos antes tratavam como obrigações.





Dir-vos-ão, como sempre dizem, que tributar a riqueza extrema é complicado, que o capital foge, que a redistribuição é uma ferramenta ineficaz e perigosa. Estes argumentos são utilizados pelas pessoas que seriam mais tributadas.





Já foi modelado, calculado e proposto repetidamente um imposto sobre a riqueza, suficiente para financiar a saúde e a educação universais em todo o Sul Global. O obstáculo nunca foi a aritmética. Sempre foi a política, e a política é propriedade das pessoas que o imposto afetaria.


Mas aqui está o que o primeiro bilião não quer que se perceba. No mesmo mundo que produziu a fortuna de Musk, os 99% estão a organizar-se. O Global Protest Tracker da Carnegie (1) registou mais de 110 grandes protestos antigovernamentais em 70 países no último ano. A maioria deles era movida pela mesma raiva contra o mesmo sistema manipulado.





Os jovens forçaram uma redução de impostos no Quénia, derrubaram governos no Nepal e em Madagáscar, e foram às ruas,desde Marrocos à Indonésia, exigindo a mudança de leis. Fizeram-no sem fundos de guerra de biliões de dólares. Fizeram-no sozinhos, ao lado de pessoas como o leitor e eu, em solidariedade, insistindo em que a concentração de riqueza não é inevitável.





Esse movimento é o contrapeso a tudo o que este momento representa. Os bilionários estão a sentir a pressão. Em maio, Jeff Bezos foi à CNBC para afirmar que o sistema tributário não é capitalismo de compadrio, defender os seus pares contra a 'demonização' e negar que os ultra-ricos evitam os impostos de todas as maneiras – isto é a argumentação de uma classe que, de repente, sente a necessidade de defender o seu caso em público.





Qualquer imposto sobre a riqueza agora discutido seriamente num parlamento, cada taxação de bilionários debatida na ONU, todas as reivindicações de cancelamento de dívida que entram na agenda de um governo chegou lá porque as pessoas se organizaram e se recusaram a aceitar os termos impostos de cima. O 1% tem o dinheiro e, por enquanto, o controlo da política. Os 99% têm a maioria, o argumento moral e uma recusa crescente em se deixar distrair de quem realmente lhe está a ir aos bolsos.





O dia 12 de junho de 2026 pode ser o dia em que o primeiro bilionário foi oficialmente declarado, mas também pode ser o momento em que milhões de pessoas decidirão que eles já tiveram o suficiente.














(1) O Global Protest Tracker, criado pelo Carnegie Endowment for International Peace (Fundo Carnegie para a Paz Internacional) , é uma ferramenta interativa e base de dados online que monitoriza e analisa os protestos antigovernamentais mais significativos em todo o mundo, a partir de 2017 . O fundo foi criado em 1910 pelo magnata do aço e filantropo escocês-americano Andrew Carnegie.





Fonte: What a Trillion Dollars Tells Us about Who Runs the World – MLToday, publicado e acedido em 12.06.2026

Foto: https://raindance.org/wp-content/uploads/2024/12/Elon-Musk-Filmmaker.jpg



Tradução de TAM

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Ocupação subsidiada: o ouro negro, a Palestina e os árabes

25.09.2026


Dr. M. Reza Behnam






Trump, Netanyahu e ministros das Relações Exteriores árabes assinam os Acordos de Abraão na Casa Branca, em setembro de 2020. 
(Foto oficial da Casa Branca por Joyce N. Boghosian, via Wikimedia Commons)





O ouro negro que antes prometia autodeterminação regional acabou por financiar um statu quo de cumplicidade e servidão, deixando a causa palestiniana isolada num altar de diplomacia transacional e preservação dinástica.






O Médio Oriente moderno sofre de um paradoxo consequentemente gritante: os Estados árabes ricos em petróleo possuem, sem dúvida, algumas das mais concentradas alavancas geopolíticas e económicas do planeta. No entanto, desde a década de 1970, recusaram usar a sua indispensabilidade económica na defesa do Estado palestiniano e da sua própria soberania.





O desvio dos Estados árabes do Golfo do nacionalismo árabe histórico para o alinhamento ocidental reflete uma mudança fundamental nas prioridades regionais. Os monarcas árabes trocaram a sua independência e vasta influência regional pela integração económica ocidental, tecnologia avançada de defesa e garantias de segurança externa.





A comunidade global, durante décadas, tem sido levada a acreditar que o caminho para a autodeterminação palestiniana é um nó complexo demais para desfazer. A realidade, no entanto, é muito mais transacional.





As ricas capitais do Golfo e o bloco árabe produtor de petróleo no seu todo possuem quatro pontos críticos de pressão que poderiam ser acionados para forçar uma rutura diplomática ou promover mudanças regionais significativas. Nenhuma, no entanto, foi empregada: 1) o poder do petróleo; 2) a soberania sobre as vias navegáveis; 3) os petrodólares; e 4) o poder da umma [comunidade muçulmana global].





O poder do Petróleo





Em 1973, os produtores árabes de petróleo demonstraram a eficácia do uso do petróleo como arma económica. Foi um daqueles raros momentos em que os regimes árabes exploraram a sua influência para desafiar o imperialismo ocidental.





Após o início da Guerra Árabe-Israelita de outubro de 1973 entre o Egito, a Síria e Israel, a Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo (OPAEP) impôs um embargo total de petróleo em resposta ao apoio dos EUA a Israel durante a guerra. Exigiram que Israel se retirasse das terras palestinianas que tinha ocupado na Guerra de 1967.





A ação coletiva da OPAEP causou escassez, desencadeou uma recessão massiva e levou a um realinhamento da economia global. O embargo gerou enormes receitas para os Estados produtores. O súbito influxo de capital acelerou a nacionalização das suas indústrias petrolíferas, permitindo que eles assumissem o controlo de ativos anteriormente detidos por acionistas dos EUA e do Reino Unido.





Apesar da riqueza sem precedentes conquistada pelos produtores árabes, o cenário geopolítico permaneceu inalterado quando a OPAEP suspendeu o embargo em março de 1974. As forças israelitas permaneceram entrincheiradas na Palestina ocupada.


A utilização do petróleo como arma foi, desde 1973, unilateralmente desativada pelas elites do Golfo. Durante sucessivas crises, incluindo a destruição catastrófica e o genocídio na Gaza ocupada e na Cisjordânia, bem como a atual guerra contra o Irão não árabe, eles descartaram explicitamente embargos de petróleo ou cortes de produção para pressionar os facilitadores ocidentais de Israel.





Em vez de utilizar a energia como ferramenta de oposição à hegemonia EUA-Israel, os regimes árabes alinharam-se e normalizaram as relações com os perpetradores da ocupação, do apartheid e do genocídio.





Por exemplo, deram prioridade à manutenção da previsibilidade do mercado e à maximização de receitas para financiar megaempreendimentos domésticos e projetos energéticos de "econormalização", integrando as infraestruturas israelitas (em posição dominante) nas grelhas de mercadorias e importações de gás árabes.





Soberania sobre Vias Navegáveis





Alguns dos corredores marítimos mais críticos e pontos estratégicos de estrangulamento, indispensáveis para o comércio global, estão situados no Médio Oriente; designadamente o Canal de Suez, que liga o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho, o Estreito de Ormuz no Golfo Pérsico e o Bab al-Mandab no Mar Vermelho.





A guerra em curso entre os EUA e Israel contra o Irão fez ressaltar a importância crítica para o comércio global das vias navegáveis da região e mostrou como as interrupções militares podem causar ondas de choque nos mercados financeiros e de energia.





Na atual guerra assimétrica, o Irão demonstrou como usar efetivamente uma via navegável vital como ferramenta estratégica. Aproveitou o encerramento e a perturbação do Estreito de Ormuz para estabelecer controle sobre a via navegável e forçar grandes concessões estratégicas. Assim como o Irão, o Ansar Allah do Iémen ameaçou fechar o Bab al-Mandab — o único ponto de entrada para o Mar Vermelho a partir do Oceano Índico, que facilita o comércio entre a Ásia e a Europa.





Os maiores Estados árabes não tiraram partido da sua geografia para desafiar a supremacia regional dos EUA-Israel. Em vez disso, atuaram como guardiões do statu quo imperial, defendendo essas passagens indispensáveis para garantir o fluxo ininterrupto do comércio global até às próprias nações que apoiam a ocupação da Palestina e o genocídio em Gaza.





Petrodólares





A base estrutural do domínio financeiro dos Estados Unidos tem sido o "petrodólar" — um sistema de décadas em que o preço do petróleo é expresso em dólares, com o excedente resultante reciclado em forma de títulos do Tesouro dos EUA e ativos financeiros ocidentais.





Além de deter o "cartão petrodólar", vastos abastecimentos críticos de energia e pontos de estrangulamento energéticos cruciais, os Estados árabes, especialmente as monarquias do Conselho de Cooperação do Golfo (Bahrein, Kuwait, Omã, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos) controlam aproximadamente seis biliões de dólares em fundos soberanos nos mercados ocidentais.





Qualquer esforço coordenado para expressar o preço da energia em moedas alternativas, diversificar reservas fora do dólar ou liquidar títulos do Tesouro dos EUA representaria uma ameaça existencial à hegemonia financeira ocidental.





Em vez de aproveitar a sua imensa riqueza económica e financeira para promover interesses regionais e palestinianos, os regimes árabes continuam a depositar petrodólares em instituições ocidentais, subsidiando efetivamente os próprios sistemas financeiros de países que usaram os seus vetos no Conselho de Segurança das Nações Unidas para bloquear a criação do Estado palestiniano.





Poder da Umma





A força da umma — a comunidade global de muçulmanos — decorre do poderoso conceito de unidade que transcende fronteiras. Ela é sustentada pela solidariedade espiritual, e não pelo poder militar ou o domínio económico. A consciência coletiva da fé reflete-se no ensino do Profeta de que a umma é um só corpo—quando qualquer membro dói, todo o corpo sente a dor.





A comunidade muçulmana global mantém uma profunda solidariedade com a Palestina, que está intrinsecamente entrelaçada na história e espiritualidade islâmicas. A consciência de comunidade foi despertada pelas atrocidades contínuas e pelo sofrimento infligido aos palestinianos e pela destruição da Palestina, reverenciada como terra sagrada.





Através das fronteiras artificiais do Médio Oriente, a umma é um oceano de poder revolucionário inexplorado disposto a enfrentar o imperialismo e a ocupação sionista colonial da Palestina.





As classes políticas árabes deveriam prestar toda a atenção ao facto de a força geopolítica provir da integração regional e da solidariedade com a umma, não com o Ocidente. Em vez de entender a Palestina como uma força unificadora e um imperativo de segurança, eles usaram-na como uma carta a ser trocada pelos favores de Washington. Ao fazê-lo, sacrificaram a autoridade moral de uma causa justa e converteram o seu vasto poder geopolítico num instrumento de cumplicidade passiva e sobrevivência do regime, à custa da libertação, integridade e dignidade.





A libertação da Palestina não será conquistada pela tinta de tratados comprometidos e diplomacia falhada. Em vez disso, será impulsionado pela força unificada, a indignação e o bater do coração de milhões de pessoas em todo o mundo árabe, que se recusam a permitir fronteiras artificiais ou deixar que forças estrangeiras ditem os limites da sua solidariedade.





Após meses de ataques aéreos mortais dos EUA ao Irão, os Estados árabes que abrigaram bases militares americanas e forneceram espaço aéreo para a guerra enfrentam ataques retaliatórios e severas perturbações económicas.





Apanhados no fogo cruzado, eles enfrentam uma escolha crítica: submeter-se à contínua subjugação estrangeira ou utilizar o poder coletivo e os recursos que possuem para corrigir a injustiça histórica e contínua infligida aos palestinianos, livrar a região da interferência destrutiva estrangeira e restaurar a dignidade da região.





Os esforços palestinianos para alcançar um Estado não têm apenas a ver com a ocupação externa; na verdade, trata-se de abandono regional mascarado com solidariedade retórica. Ao dar prioridade à sobrevivência do regime, as lucrativas redes globais de comércio e a estabilidade autoritária em detrimento do alinhamento pan-árabe e da causa palestiniana, os Estados árabes permitiram-se tornar-se estruturalmente subservientes aos ditames geopolíticos de Washington e às ambições estratégicas de Tel Aviv.





A elite governante em todo o mundo árabe tem sido cega para a realidade de que os EUA e Israel estão ligados à subjugação, não à cooperação.





Em última análise, o ouro negro que antes prometia autodeterminação regional acabou, em vez disso, por financiar um statu quo de cumplicidade e servidão, deixando a causa palestiniana isolada num altar de diplomacia transacional e preservação dinástica.



Fonte: https://www.palestinechronicle.com/the-subsidized-occupation-the-black-gold-palestine-and-the-arabs/?utm_source=emailoctopus&utm_medium=email&utm_campaign=The%20Palestine%20Chronicle%20Newsletter%2C%20July%2020, publicada em 20.07.2026 e acedida em 21.09.2026


Foto: https://www.palestinechronicle.com/wp-content/uploads/2026/03/normalization_wikimedia_wh_arabs_israel.png





Tradução de TAM

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Discurso do Partido Comunista da Venezuela (PCV) em Havana

21.09.2026





Partido Comunista da Venezuela





O mundo capitalista treme diante da disputa crescente entre as potências imperialistas pelo controle de recursos estratégicos, mercados e áreas de influência geopolítica. Uma nova divisão do mundo entre as potências imperialistas – tradicionais e emergentes – está a formar-se no meio de uma dinâmica de sangrentas convulsões económicas, sociais e políticas.







Queridos camaradas:





Recebam uma saudação fraternal do Partido Comunista da Venezuela (PCV).





Saudamos de forma muito especial, o esforço extraordinário feito pelos camaradas do Partido Comunista de Cuba que, apesar da situação muito séria que enfrentam, no meio da intensificação do implacável ataque imperialista por todas as formas, são os anfitriões desta 24ª edição da Reunião Internacional dos Partidos Comunistas e Operários (EIPCO). Que o povo cubano e a sua vanguarda revolucionária recebam a reafirmação da solidariedade dos comunistas venezuelanos.





Também gostaríamos de aproveitar esta oportunidade para agradecer aos partidos irmãos pelas suas expressões de solidariedade com a classe trabalhadora e o povo venezuelanos diante da tragédia causada pelos terramotos de 24 de junho, que deixaram mais de 6 000 mortos, milhares de desaparecidos e quase 18 000 pessoas sem abrigo. As famílias trabalhadoras foram as principais vítimas desse desastre natural, que evidenciou a trágica realidade económica, social e institucional do nosso país.





É significativo que este EIPCO coincida com o centenário do Comandante Fidel Castro, cujas ideias esclarecedoras e força moral continuam a guiar as ações e a resistência heroica do povo cubano. Fidel também é uma das principais referências da luta revolucionária contra o capitalismo e o imperialismo, e pelo triunfo do socialismo-comunismo em todo o planeta.





Em momentos de violenta agudização da luta de classes à escala planetária, a sua estatura cresce em Cuba, na América Latina e em todo o mundo. A famosa frase do sábio inca Choquehuanca, na sua homenagem ao libertador Simón Bolívar em Pucará, aplica-se perfeitamente a Fidel: "A sua glória crescerá como a sombra ao pôr-do- sol."





A Luta de Classes e a Ditadura Global do Capital Monopolista





O mundo capitalista treme diante da disputa crescente entre as potências imperialistas pelo controle de recursos estratégicos, mercados e áreas de influência geopolítica. Uma nova divisão do mundo entre as potências imperialistas – tradicionais e emergentes – está a formar-se no meio de uma dinâmica de sangrentas convulsões económicas, sociais e políticas.





Em particular, o propósito do capital monopolista dos EUA de impor a sua hegemonia planetária – sob a administração de Donald Trump – aumentou as tensões com os seus principais concorrentes, a China e a Rússia, colocando a humanidade à beira de uma conflagração mundial.





Neste contexto, a contradição fundamental entre capital e trabalho torna-se aguda. As burguesias e os seus Estados estão a tentar, a todo o custo, compensar a crescente tendência da queda da taxa de lucro, determinada pela aceleração do crescimento do capital constante em relação ao capital variável. Esse processo tende a intensificar-se como resultado da concorrência interimperialista e intracapitalista, num contexto marcado por maior automação nas nações industrializadas, pela corrida à inovação tecnológica e pela expansão de bolhas de crédito massivas.





Isto gera uma redução drástica na força de trabalho empregada, a redução dos salários e, em geral, a imposição de políticas de desregulamentação laboral, bem como o desmantelamento dos sistemas de proteção social. Essa situação é agravada pelos ajustamentos orçamentais feitos pelos Estados burgueses ao alocar mais recursos para guerras e planos militaristas, como ocorre atualmente na Europa.





Tudo isto produziu um importante recuo dos movimentos operário e sindical em diferentes partes do mundo, ao mesmo tempo que levantava a necessidade de um papel cada vez mais importante para os partidos revolucionários da classe trabalhadora e do sindicalismo de classe.





Nesta dinâmica global, o sionismo israelita, como expressão e ala armada dos interesses imperialistas, impõe uma agenda de violência, ocupação, expropriação e morte a serviço do capital monopolista. A ofensiva genocida contra o povo palestiniano é a expressão mais brutal dessa política, sustentada pela força militar, o deslocamento forçado, a destruição sistemática das condições de vida e a negação dos direitos do povo palestiniano.





O PCV reafirma a sua total solidariedade internacionalista com o povo mártir da Palestina e com a sua legítima luta pela autodeterminação e libertação nacional, assim como com os povos do Irão, Líbano, Síria e outros povos que são vítimas da agressão imperialista e sionista.





O fascismo global e uma nova ofensiva anticomunista





O fascismo global no século XXI surge como uma expressão do poder político autoritário do grande capital monopolista – com predominância do capital financeiro – que, pela força, subjuga os seus adversários, transformando o direito internacional e as suas instituições em instrumentos obsoletos e inaplicáveis. Os trabalhadores e as massas populares, em geral, são as grandes vítimas da imposição da ditadura terrorista global do sistema capitalista na sua fase imperialista, caracterizada pela maior concentração monopolista de todos os tempos e regida pelos ditames da especulação financeira.





Uma característica inerente ao fascismo é o anticomunismo. Exatamente, a atual administração dos EUA colocou novamente o anticomunismo no centro do seu discurso e da sua ofensiva política. Recentemente, Donald Trump afirmou que "o comunismo continua a ser a maior ameaça" enfrentada pelos EUA e chamou ao socialismo, comunismo e totalitarismo "ideologias do mal."





Esta declaração é uma expressão particularmente clara da ofensiva ideológica que Washington está a travar contra o comunismo e as forças revolucionárias. Assim, prevê-se um novo McCarthysmo que, como no passado, poderia estender-se a toda a gama de expressões socialistas e de esquerda. Não é surpreendente que esse método se baseie na estigmatização e criminalização de qualquer pessoa ou organização que se assuma como marxista-leninista, anti-imperialista, anticapitalista ou de esquerda. A batalha contra o anticomunismo terá de ser travada em todos os campos, sendo o campo ideológico um dos fundamentais.





Neste ponto, também é necessário não perder de vista o papel da social-democracia e do "progressismo" que, ao defraudar as massas, desmontar ou enfraquecer o potencial revolucionário e anticapitalista do proletariado e ocultar a verdadeira natureza de classe do fascismo como expressão política do imperialismo em tempos de profunda crise capitalista, contribuem para o avanço e consolidação da ditadura terrorista do grande capital, chegando a colocar-se ao seu serviço.





A ofensiva imperialista contra a América Latina


O imperialismo dos EUA está a lançar uma ofensiva política e militar na América Latina e nas Caraíbas com o objetivo de garantir o controle total da região. Para isso, utiliza o chamado "Corolário Trump" da Doutrina Monroe, no seu esforço para conter a influência da China e da Rússia. Por meio de manipulações políticas e recursos pseudolegais, procura justificar o seu intervencionismo criminoso, sob o pretexto de combater o tráfico de drogas e o terrorismo e defender a segurança dos Estados Unidos.





Com tais pretextos e em violação do direito internacional, desde agosto de 2025 foi implantada a chamada Operação Lança do Sul nas águas do Mar das Caraíbas e do Pacífico Oriental, mobilizando, sob o Comando Sul do Pentágono, uma força militar de magnitude sem precedentes na América Latina. Após meses de execuções extrajudiciais em águas internacionais – com o assassinato impune de civis venezuelanos, colombianos e caribenhos – e prisões e ataques a navios que transportavam petróleo venezuelano, o país enveredou pelo ataque à Venezuela.





A mobilização militar dos EUA nas Caraíbas e a agressão contra a Venezuela fazem parte de uma ofensiva geral contra os povos latino-americano e caribenho, com o objetivo de frustrar as suas lutas por sociedades mais justas, democráticas e soberanas. Neste contexto, Washington intensificou um plano de asfixia económica e energética contra a Cuba revolucionária, acompanhado por crescentes ameaças de intervenção militar, com o objetivo de provocar o colapso e a derrota da Revolução Cubana.





Ao mesmo tempo, o imperialismo dos EUA conseguiu posicionar governos alinhados com a sua política de dominação em países como a Argentina, o Panamá, o Equador, o Paraguai, a República Dominicana, El Salvador, Chile, Bolívia, Costa Rica, Honduras, Colômbia e Peru. A esta lista deve ser acrescentado o atual governo da Venezuela, apesar da retórica enganadora da liderança que detém o poder.





Ao examinar esta nova correlação de forças políticas na América Latina, é necessário que os comunistas, sob uma perspetiva de classe, identifiquem o papel desempenhado pelo reformismo social, bem como as suas limitações, inconsistências e ambiguidades.





Venezuela sob tutela ianque





Em 3 de janeiro deste ano, os EUA realizaram uma operação de assalto militar contra a Venezuela e sequestraram o presidente de facto da República, Nicolás Maduro, e a sua esposa, Cilia Flores, enquanto assassinavam pessoal venezuelano e cubano que executava funções de guardas presidenciais.





O PCV imediatamente condenou essa ação como um ato de agressão imperialista cobarde, totalmente contrária ao direito internacional. Também denunciámos a ausência de uma resposta militar do Estado venezuelano em defesa da soberania e integridade territorial, violada pelo ataque das forças militares dos EUA e pela subsequente presença diária de oficiais e tropas estrangeiras no nosso país.


Assim, o povo venezuelano descobriu a sua falta de defesa diante das pretensões de uma potência estrangeira e a incapacidade do Estado de garantir a soberania e a segurança nacional. Os discursos desafiadores contra o imperialismo e as promessas de defender a pátria "mesmo com a própria vida, se necessário" acabaram por se revelar como a retórica vazia de uma liderança que, vergonhosamente, coloca o território venezuelano e os seus recursos naturais ao serviço dos interesses dos tiranos do norte.





Isto confirma a nossa denúncia de longa data do caráter do PSUV. O único interesse da sua liderança é manter o poder a qualquer custo: não apenas pela destruição dos direitos laborais e da violação das liberdades democráticas, mas pela rendição do país e pela frustração das lutas travadas durante décadas pelo povo venezuelano, os verdadeiros revolucionários e patriotas que desejam uma nação livre e soberana.





A capitulação do triunvirato da indignidade





Imediatamente após o ataque militar dos EUA e o sequestro de Maduro, a ilegitimidade continuou no exercício do poder político por meio de um governo "transitório", presidido por Delcy Rodríguez que, juntamente com Jorge Rodríguez e Diosdado Cabello, compõe o chamado triunvirato da indignidade. Este grupo orientou as suas políticas para a rendição do país e para colocar os seus recursos estratégicos ao serviço dos interesses do domínio continental e mundial do imperialismo dos EUA e do sionismo israelita, em acordo aberto com setores da oposição burguesa.





De forma cínica, a liderança corrupta e traiçoeira do PSUV tenta justificar o seu entendimento diplomático com o governo dos Estados Unidos apelando a um suposto pragmatismo para preservar o chamado governo "revolucionário". No entanto, a entrega da soberania energética a monopólios transnacionais, a adoção de posições que coincidem com a política externa imperialista e a presença da CIA, assim como dos fuzileiros navais americanos em território venezuelano, revelam um comportamento subordinado a interesses estranhos aos da nação e distante de qualquer princípio revolucionário.





Este comportamento também desmente o argumento de que agem apenas sob ameaça. A elite governante nem sequer denunciou formalmente perante os órgãos internacionais apropriados o uso da força militar dos EUA para intimidar uma nação soberana. Uma verdadeira liderança revolucionária teria enfrentado o intervencionismo imperialista em todos os campos e defendido consistentemente a soberania nacional.





Entre as primeiras medidas adotadas pelo chamado "governo de transição" esteve a cessação total do fornecimento de petróleo bruto e combustíveis a Cuba. Pouco depois, promoveu uma reforma abrangente da Lei Orgânica dos Hidrocarbonetos que aprofunda a transferência do negócio do petróleo para empresas transnacionais, dando continuidade aos privilégios especiais concedidos por Maduro à Chevron.





Isto reverteu uma conquista histórica da soberania nacional sobre os hidrocarbonetos, cuja defesa foi uma das grandes lutas dos trabalhadores do petróleo e do Partido Comunista da Venezuela desde 1936. Esta luta teve um ponto de viragem com a nacionalização do petróleo em 1975 e foi posteriormente ampliada durante o governo de Hugo Chávez.





Trump admitiu cinicamente que os EUA recuperaram já mais do que o custo da operação militar contra Caracas ao controlar o petróleo venezuelano, ao qual se soma uma fatia de mais de 13 mil milhões de dólares em apenas seis meses. Diante deste saque, o triunvirato dos dois Rodríguez e Diosdado Cabello permanece em silêncio e permite que a riqueza petrolífera do país acabe nas mãos do imperialismo, num cenário em que quase 70% das famílias venezuelanas vivem na pobreza e um terço enfrenta pobreza extrema.





Da rendição do PSUV ao protetorado imperialista





A recente tragédia causada pelos terramotos de 24 de junho evidenciou o colapso institucional do país e a inexistência de um governo focado nas necessidades do povo. Ao mesmo tempo, confirmou a ausência de autonomia da elite governante, permitindo a entrada de forças militares dos EUA e funcionários do Estado Sionista de Israel sob o pretexto de assistência humanitária.





Como é que uma nação soberana, governada por uma liderança que ainda se proclama "revolucionária", poderia acabar por se tornar um protetorado neocolonial do petróleo? Para compreender isto, é necessário considerar o papel histórico atribuído à Venezuela na divisão internacional do trabalho: um fornecedor estratégico de energia de combustíveis fósseis às potências imperialistas ocidentais, especialmente os Estados Unidos.





A disputa interimperialista pelo controle dos recursos venezuelanos foi agravada pela crescente presença de capitais russos, chineses, turcos e iranianos. Neste contexto, e diante da escalada militar no Médio Oriente, o governo de Donald Trump executou o seu plano de agressão contra a Venezuela. No entanto, os acontecimentos e a conduta da liderança civil e militar venezuelana indicam que isto não foi apenas uma operação militar, mas também uma manobra política destinada a subordinar a elite governante aos interesses do imperialismo americano.





Esta situação foi favorecida pela profunda crise da acumulação capitalista e pelo colapso dos preços do petróleo, ao qual o governo de Nicolás Maduro respondeu com anos de políticas anti-operárias, antipopulares e antidemocráticas. O desvio de recursos públicos, a transferência de enormes recursos para a burguesia parasita e o capital financeiro, além de uma política económica favorável ao grande capital, aprofundaram a desigualdade e alimentaram a rejeição de amplos setores populares.





Ao mesmo tempo, foi aplicada uma política laboral voltada para destruir salários e desmontar direitos conquistados pelos trabalhadores durante décadas de luta. Sob o álibi de uma falsa resistência às sanções imperialistas criminosas, foi generalizada uma política de superexploração da força de trabalho através da destruição dos salários, o enfraquecimento dos acordos coletivos, as restrições ao direito à greve e à liberdade de associação e a criminalização judicial da luta dos trabalhadores.





A este processo juntou-se a ofensiva contra as liberdades democráticas e a participação política. A liderança do PSUV ordenou o ataque judicial a vários partidos. No caso do PCV – um caso que está prestes a completar três anos – o processo judicial violou o direito à defesa e as garantias constitucionais. Finalmente, um tribunal subordinado ao poder político entregou a personalidade jurídica do PCV aos militantes do PSUV. Com isto, a classe trabalhadora venezuelana foi privada do seu principal instrumento de participação política e eleitoral.





O PCV, apesar dessa proibição de facto, continua a lutar; exigindo a restituição da sua personalidade jurídica e da sua sigla eleitoral; e disposto a assumir as formas correspondentes de luta em defesa dos interesses da classe trabalhadora e do povo trabalhador.





Ao mesmo tempo, o enriquecimento dos altos comandantes militares através de negócios ligados ao Estado minou o moral e as instituições das Forças Armadas. Corrupção, autoritarismo, falta de transparência, violações dos direitos sociais e humanos, e o desrespeito pela vontade popular expressa nas eleições presidenciais de 2024 aprofundaram o colapso institucional da República. A isto somava-se a ação de uma oposição que promovia abertamente a intervenção imperialista como uma falsa saída para a crise política, contribuindo assim para a criação das condições que facilitaram a operação militar dos EUA.





Por uma alternativa democrática, popular e soberana





Atualmente, o Departamento de Estado dos EUA coordena com o triunvirato da indignidade – Delcy, Jorge Rodríguez e Diosdado Cabello – e com setores dóceis da oposição, a implementação de um suposto plano de "transição democrática", cujo verdadeiro objetivo é consolidar o controle dos EUA sobre a Venezuela.





Afirmamos que esse processo é contrário à ordem constitucional. É inaceitável que o futuro político da Venezuela seja decidido sob a tutela de uma potência estrangeira.





Perante esta situação, o PCV, em conjunto com várias organizações políticas e sociais, avança na construção de uma política de unidade popular e democrática para resgatar a Constituição, defender a soberania nacional e enfrentar saques, autoritarismo e a tutela estrangeira.





O objetivo é convergir num grande movimento nacional pela restituição dos direitos sociais e das liberdades democráticas, pela soberania e independência da pátria. Trata-se do povo venezuelano a retomar o caminho da sua histórica luta pela emancipação e contra todas as formas de dominação estrangeira.





Com esta convicção, o nosso Partido convocou o seu XVII Congresso Nacional para março de 2027 e está a caminhar para a celebração do seu centenário em 5 de março de 2031.





Sobre os Partidos Comunistas do Mundo: A Unidade Necessária e Possível





Camaradas,





A complexa realidade da luta de classes e a globalização da violência reacionária do capital impõem aos partidos comunistas e operários a necessidade de usar criativamente a teoria do comunismo científico para iniciar, organizar e liderar uma saída revolucionária dos atoleiros em que o sistema capitalista coloca a humanidade. Hoje, mais do que nunca, o dilema histórico entre "reforma ou revolução" está novamente no centro do debate do proletariado e das suas organizações.





Não é segredo que, entre os Partidos Comunista e Operários do mundo, existem diferenças importantes em questões teóricas e políticas cruciais. Se elas não forem adequadamente abordados, poderão aprofundar a já frágil unidade de todas as nossas organizações, favorecendo a estratégia dos inimigos da classe trabalhadora e dos povos que, apesar das suas próprias contradições, avançam de forma coordenada na defesa dos seus interesses.





Por esta razão, da parte do PCV, consideramos essencial que o EIPCO continue a existir como um espaço para encontros, trocas e debates entre os nossos partidos, apesar das nossas reconhecidas diferenças. Neste quadro, propomos fortalecer o estudo e a discussão coletiva dos principais problemas que atravessam o movimento comunista internacional.





A unidade dos proletários do mundo também exige a unidade estratégica das suas organizações de vanguarda, baseada na firmeza dos princípios, no debate fraternal e na capacidade de construir acordos para a ação comum.





Proletários do mundo, uni-vos!


Ainda estamos de pé, unindo forças, organizando as lutas!







Fonte: https://mltoday.com/imcwp-24-contribution-of-cp-venezuela/, publicado e acedido em 31.08.2026
 
Foto: https://elpopular.uy/wp-content/uploads/2021/12/AnyConv.com__pcv.jpg




Tradução de TAM

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

AfD, a alternativa para o grande capital

18.09.2026


Rizospastis 12,13 de setembro


Milhares de despedimentos, inflação de até 6,7%, rendas de casa a chegar a 2/3 do salário, aumentos de 40% na energia, 37% em pão e cereais, 65% em óleo e manteiga, etc. Cortes em todos os ministérios, exceto o da Defesa: 2 mil milhões na Saúde, 4 mil milhões nas pensões, 1 000 milhões na habitação e no apoio às rendas, 500 milhões nos subsídios de parentalidade. A receita de impostos adicionais sobre o açúcar, plásticos, tabaco e álcool chega a 3,4 mil milhões, dinheiro que sai do bolso da classe trabalhadora.









"Rutura no sistema político", "Terramoto político", "Aviso à Alemanha", "Choque em Berlim"... Estas são algumas das manchetes que dominaram os principais jornais burgueses alemães na última semana.


Os artigos e análises discutem a vitória eleitoral da AfD [Alternativa para a Alemanha] com 43,8% dos votos no Estado da Saxónia-Anhalt, o que, obviamente, não foi nenhuma surpresa. A trajetória ascendente constante da AfD em toda a Alemanha nos últimos quatro anos, pelo menos, assim como as recentes sondagens de opinião, já prenunciavam esse resultado.


As previsões para o Estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental nas eleições do próximo domingo são semelhantes, com a AfD a subir cerca de 20%, o primeiro partido com uma percentagem de cerca de 35%... A pergunta que surge quer aos trabalhadores alemães quer aos imigrantes gregos é: "Como chegámos a isto?". Como é que as forças nacionalistas e de extrema-direita se podem fortalecer na Alemanha, num país com esta história? Por que razão as pessoas votam na AfD?


Quem é a AfD?


Antes de prosseguirmos, vale a pena relembrar como foi formada a AfD, como evoluiu, e quais são as suas posições atuais. O partido "Alternativa para a Alemanha" foi fundado em 2013, no meio da crise capitalista, por um grupo de economistas, académicos e políticos conservadores, liderado por Bernd Lucke, um economista classificado como "eurocético".


Inicialmente chamado "partido dos professores", o partido defendia que países da zona do euro, como a Grécia, não deveriam ser "resgatados" com empréstimos europeus e propunha a abolição do euro. Essa iniciativa refletia a preocupação de setores da burguesia alemã de que os pacotes de "resgate" para países como a Grécia oneravam os contribuintes alemães, colocando em risco a própria estabilidade da economia alemã.


Em 2015, quando os fluxos migratórios da Síria inundaram a Alemanha, Frauke Petry assumiu a liderança do partido, com posições anti-islâmicas, racistas e de extrema-direita. Em 2017, a AfD entrou pela primeira vez no parlamento federal alemão com 12,6% dos votos e tornou-se a oposição oficial. Muitos dos seus membros e deputados vêm diretamente de organizações neonazis, como o NPD (agora Die Heimat) ou a juventude nacionalista Junge Nationalisten.


Durante a pandemia, a AfD liderou a oposição às restrições e outras medidas tomadas pelo governo alemão e pela UE, ao mesmo tempo que se opunha à política de "transição verde".


Como forma de superar a recessão económica, a AfD vislumbra uma reaproximação com a Rússia e a China, o seu maior parceiro comercial. Em relação à Rússia, em particular, o partido defende a reabertura dos gasodutos Nord Stream, os seus executivos já estão a reunir-se com representantes da Gazprom, levanta a questão do fim do envio de armas para a Ucrânia e inicia negociações com a Rússia. Quanto à China, afirma que "não é uma inimiga, mas uma parceira".


Procura abandonar a política mais “protecionista” adotada pela União Europeia, por considerá-la prejudicial aos monopólios alemães. “A política externa não é uma disputa de virtude moral, mas uma política de interesses”, afirmam. Defende o regresso aos combustíveis fósseis e à energia nuclear, a abolição do comércio de emissões de CO2, a redução dos impostos sobre a energia e o fim dos subsídios para energia eólica e solar. Essencialmente, defende o abandono da “transição verde”.


Por fim, defende um Estado forte que “devolva à Alemanha os seus princípios e raízes”. Propõe uma “administração descentralizada” com “maior autonomia” nos diversos Estados, bem como um Estado que reivindique maior “autonomia” dentro da UE. Propostas semelhantes também foram feitas pela Itália, pelo governo de extrema-direita de Meloni.


Em que terreno está a AfD a ganhar força eleitoral?


Num contexto de intensa luta intraburguesa na Alemanha, em torno da combinação económica que pode levar à recuperação, de ajustamentos na política externa e da posição alemã em relação à guerra entre a NATO e a Rússia, a política da AfD encontra eco em setores da burguesia que são os grandes perdedores da guerra na Ucrânia e do envolvimento alemão nela (por exemplo, indústrias de uso intensivo de energia e empresas capitalistas atuantes na produção agrícola). Além disso, encontra eco em setores do capital que veem as suas perspetivas afetadas pela concorrência internacional com a China e os EUA (por exemplo, a indústria automóvel).


Especialmente no que diz respeito à guerra, todas as forças políticas (social-democratas, democratas-cristãos, etc.) estão alinhadas no apoio à Ucrânia na guerra entre a NATO e a Rússia, com consequências dolorosas para os trabalhadores e as famílias populares. Ao mesmo tempo, à sombra dos impasses da economia capitalista e da guerra, o ataque de todos os governos e partidos burgueses aos trabalhadores tem-se intensificado nos últimos anos.


Uma série de reformas reacionárias estão a acelerar-se na Segurança Social, no sistema de saúde (com uma redução drástica nos subsídios para medicamentos, redução no subsídio de doença, abolição do seguro de saúde familiar e restrições na prevenção de doenças), nas pensões (aumento da idade de reforma, aumento dos descontos para a segurança social ) e nos direitos laborais (semana de trabalho de 13 horas, organização semanal da jornada de trabalho).


Milhares de despedimentos, inflação de até 6,7%, rendas de casa a chegar a 2/3 do salário, aumentos de 40% na energia, 37% em pão e cereais, 65% em óleo e manteiga, etc. Cortes em todos os ministérios, exceto o da Defesa: 2 mil milhões na Saúde, 4 mil milhões nas pensões, mil milhões na habitação e no apoio às rendas, 500 milhões nos subsídios de parentalidade. A receita de impostos adicionais sobre o açúcar, plásticos, tabaco e álcool chega a 3,4 mil milhões, dinheiro que sai do bolso da classe trabalhadora.


Tudo isto teve e continua a ter um impacto decisivo na deterioração da vida dos trabalhadores e do povo na Alemanha. Há um crescente descontentamento popular e a procura de uma alternativa fora das forças "tradicionais" do sistema político burguês, cuja credibilidade está severamente fragilizada.


Neste território, especialmente nos Estados da antiga Alemanha Oriental, cresce a saudade da "vida melhor" que existia na RDA, facto que a AfD tem explorado, chegando ao ponto de se apropriar do hino nacional da RDA nas suas iniciativas! Contudo, continua a existir uma empenhada vanguarda do anticomunismo na Alemanha, em linha com as demais forças burguesas.


É também significativo que, no ano passado, antes das eleições, tenham aparecido listas de candidatos apoiados pela AfD nos locais de trabalho das mais importantes multinacionais alemãs como a “Mercedes”, a “Porsche”, a VW ou a “Krupp”), que atraíram um considerável número de votos. As suas reivindicações consistiam na exigência do apoio do Estado à competitividade dos monopólios alemães, à proteção da indústria e dos empregos, ao mesmo tempo que criticavam a transição energética. Denunciavam também as mudanças no sistema de pensões e exigiam um forte apoio às famílias e à maternidade e às famílias jovens.


A dimensão "geopolítica" do fortalecimento do AfD também fica evidente no facto de o partido estar a ganhar aliados em forças burguesas de outros Estados – incluindo os EUA, a Turquia e a Rússia - que, no contexto da intensificação da concorrência e da reorganização dos campos imperialistas, estão a consolidar a sua posição no sistema político da maior economia da UE.


A carne da carne do sistema


O posicionamento dos outros partidos burgueses, antes e depois das eleições, confirma que a AfD é a essência do sistema político burguês e foi moldada pela mesma política que serve os interesses do capital.


Os falsos dilemas e discussões sobre se o partido devia ou não ser considerado “legal”, as decisões judiciais sobre se o partido deve ou não ser classificado como uma "organização extremista", intensificaram as ilusões de que se poderia derrotar o nacionalismo e a extrema-direita através de uma série de medidas repressivas do Estado burguês. Ao mesmo tempo, as políticas prosseguidas por estes mesmos partidos, aprofundaram os becos sem saída com que o povo se confronta, enquanto as suas posições - especialmente sobre imigração - convergiam cada vez mais com as da AfD.


A "Alternativa" foi, pois, utilizada nos processos em curso de reconfiguração do sistema político. Foi apresentada como uma perigosa força "antissistémica", quando, na realidade, é uma alternativa dentro do próprio sistema num contexto de rápida deterioração das condições de vida do povo devido à recessão e à guerra que, por sua vez, estão a provocar uma poderosa onda de descontentamento. 


Nestas condições, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de um Partido Comunista de massas, com uma estratégia revolucionária e profundas raízes na classe trabalhadora.


Após as eleições no estado da Saxónia-Anhalt, os outros partidos burgueses apelaram ao fortalecimento das frentes "democrática" e "antifascista". É particularmente significativa a posição de Sarah Wagenknecht (líder da "Aliança" com o seu nome e ex-deputada do Die Linke), que ofereceu à AfD os seus lugares no Parlamento para que ela possa formar governo. O ponto em comum entre os dois partidos reside justamente nas suas posições sobre a guerra e as relações da Alemanha com a Rússia.





UM.






Fonte: https://www.rizospastis.gr/story.do?id=13410328, publicado e acedido em 13.09.2026

Foto: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjel3PULtz-RGkbg0FJ1yhyphenhyphenB1Di0FBfygPgZl9NJ_S1tKH2mQPFj201RUNM4v37x0IgR8VegYsLGETDFnxKImSzVZRLC4KwZufCL-sfMqjiQgJXWas2fVsSHLpJLX4J1g_MGOmqlVBbe1yU4uY4uN4FhPAuz9N6kG8Yazg9OSC033_w4w6J7Wns5AqPUfkr/s1920/afd-3.jpg



Tradução de TAM

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A notável revolta do Starbucks: o movimento sindical aprendeu alguma coisa?

11.09.2026



Chris Townsend



Nenhuma iniciativa sindical nos Estados Unidos em mais de 75 anos se espalhou tão rapidamente para, pelo menos, 45 Estados e o Distrito de Columbia. Mais de 15 000 trabalhadores organizaram-se em condições severas de repressão aos sindicatos, inclusive em locais distantes da presença sindical mais significativa.




                                         


Já vamos com o sexto ano bem avançado da campanha de organização do café Starbucks, sem dúvida um movimento notável sob qualquer perspetiva. Há muitas décadas, vários sindicatos mantinham uma presença sólida no setor dos cafés e da restauração – pelo menos em algumas grandes cidades. Mas, na era moderna, grandes cadeias com muitos recursos como a Starbucks parecem impenetráveis, projetadas para serem anti-sindicais e impossíveis de organizar. No início dos anos 2000, o IWW [Industrial Workers of the World ](1) conseguiu heroicamente afirmar-se e organizar várias lojas Starbucks em algumas cidades, mas acabou por ser desmantelado por uma enorme repressão sindical e violação das leis do trabalho.





Tentar construir um sindicato numa empresa gigante e distante, com milhares de locais de trabalho – concorrendo e, de alguma forma, vencendo eleições do NLRB (Conselho Nacional das Relações Laborais) (2) um a um – parece uma estratégia improvável, mesmo para organizadores sindicais resistentes e determinados. Na mente da maioria dos dirigentes sindicais das empresas — que não percebem nada de novas organizações e querem apenas ocupar cargos administrativos confortáveis nos seus sindicatos — tentar sindicalizar alvos difíceis como o Starbucks parece simplesmente uma "loucura". Gerações anteriores desses mesmos dirigentes e críticos conservadores e sem imaginação consideravam que as indústrias de produção em massa eram "impossíveis" de organizar, assim como já tinham descartado qualquer hipótese de organizar trabalhadores da saúde, enfermeiros, funcionários públicos, trabalhadores do ensino superior, trabalhadores da alta tecnologia e dezenas de milhões forçados a trabalhar numa "nova" economia.





Campanha de sindicalização na Starbucks em 2021





O primeiro grupo a organizar-se foi o dos trabalhadores da Starbucks na loja de Elmwood Avenue em Buffalo, Nova York, em dezembro de 2021. Seguiram-se-lhe de imediato duas outras lojas naquela cidade. Desde essa arrancada, mais de 700 em todo o país votaram no sindicato em eleições muito disputadas do NLRB.  Ler isto outra vez: mais de 700 lojas votaram no sindicato desde 2021!  Também se perdeu várias centenas de eleições do NLRB, devido a despedimentos em muitos locais de trabalho e à repressão sindical de todos os tipos que se possa imaginar.





Em resposta às vitórias iniciais nas eleições de Buffalo, a empresa lançou uma campanha nacional de destruição sindical, gastando somas muito avultadas – centenas de milhões – para tentar conter o contágio sindical. Poderiam ter sido realizadas centenas de eleições se não fosse esse enorme contra-ataque anti-sindical das empresas. Dado o alcance ilimitado e imparável na internet do Starbucks Workers United [Trabalhadores da Starbucks Unidos]: https://sbworkersunited.org/, poucos trabalhadores da empresa há, se é que há algum, que ainda não tenham ouvido falar da campanha sindical e dos seus êxitos.





Estudar esta campanha de sindicalização – muitas lições a tirar





O movimento sindical da Starbucks tem avançado incansavelmente, enfrentando críticas constantes e ferozes da empresa. Houve algumas reportagens na imprensa, que foram rareando à medida que a campanha crescia e “saiu da agenda”. Mas a maior parte das reportagens deixou passar ao lado aspetos-chave desta erupção sindical verdadeiramente histórica. O empregado da loja de Elmwood Avenue, e um dos primeiros dirigentes sindicais, Jaz Brisack, escreveu um livro que vale a pena ler, dando muitas explicações sobre o planeamento e o lançamento da campanha. Inclui o contexto valioso que lhe deu origem, os seus detalhes ocultos, além de uma breve abordagem de outras campanhas de sindicalização no interior do Estado de Nova York. Este livro recebeu muito pouco reconhecimento, provavelmente porque o autor não faz parte do grupo de escritores e influenciadores de esquerda que dominam a pequena cena do jornalismo sindical.





"Get On the Job and Organize” [Começa a trabalhar e organiza], de Jaz Brisack, publicado em 2025 pela Simon & Schuster, conta a história do Starbucks na perspetiva de Jaz, documentando grande parte da história real. A infeliz marca comercial da grande editora é muito visível, mas isso não é culpa do autor e provavelmente é o preço a pagar para o conseguir publicar. Com a literatura sobre organização sindical na primeira pessoa quase inexistente, este livro é de leitura obrigatória para todos os estudantes da nova organização sindical. Dois artigos deste autor em 2022 também ajudam a entender a batalha da Starbucks; "Jovens Trabalhadores Enfrentam a Quebra Sindical" https://mltoday.com/young-workers-confront-union-busting/ e "A Insurreição do Starbucks" https://mltoday.com/the-starbucks-insurrection/ Ambos oferecem análise e contexto sobre o momento inicial da Starbucks, dirigido esmagadoramente por jovens trabalhadores frequentemente expulsos pela maioria dos sindicatos.





Movimento histórico, seja qual for a perspetiva





Seja lá o que tenha sido a revolta sindical da Starbucks – e continua a ser – sempre desafiou as convenções. Esse esforço organizativo também foi obrigado a desafiar as convenções, já que desde o início foi um projeto impulsionado pela base, em grande parte desligado dos ideólogos da classe média que dominam o "pensamento" da organização sindical hoje. E realmente foi uma campanha sindical "histórica" independentemente do que se lhe queira chamar. Nenhuma iniciativa sindical nos Estados Unidos em mais de 75 anos se espalhou tão rapidamente para, pelo menos, 45 Estados e o Distrito de Columbia. Mais de 15 000 trabalhadores organizaram-se em condições severas de repressão aos sindicatos, inclusive em locais distantes da presença sindical mais significativa.





Todas as semanas, são acrescentadas novas lojas à coluna do "sim" do sindicato, sendo a mais recente, até ao momento da redação deste artigo, a vitória dos 17 trabalhadores de uma loja em Amarillo, Texas, em 24 de agosto. A margem vencedora de 14 a 2 na eleição NLRB para o sindicato Workers United – apesar do enorme ataque terrorista e anti-sindical da empresa nos últimos cinco anos – define-se realmente como "histórica". Como acompanho de perto a campanha do Starbucks, não me surpreende nada. Quando se espalhou a notícia de que o pequeno Starbucks em Scottsboro, Alabama, tinha votado "sim" para o sindicato em outubro de 2022 – cidade que ficou para sempre infame nos anos 1930, quando uma campanha internacional salvou da forca um grupo de nove jovens trabalhadores negros após um caso sórdido de provocação – não havia dúvida de que essa campanha veio para ficar. A organização também se espalhou lentamente para o Canadá, com 14 unidades Starbucks a ser já organizadas.





Uma história ainda por contar





Membros e dirigentes de muitos sindicatos já ouviram falar da campanha da Starbucks e, de forma refletida e ansiosa vão aplaudi-la. Mas, como apenas um número minúsculo de sindicalistas tem alguma ideia real do que é "organização sindical", têm pouca capacidade de traduzir a energia do Starbucks no trabalho e organização do seu próprio sindicato. Embora também tenha se tornado de conhecimento geral – em amplas camadas e maiorias da população – que os sindicatos e os conceitos de sindicalismo são extremamente populares, essa falta de familiaridade básica com organização impede que esse facto fortaleça a organização real. As direções, frequentemente tímidas e apáticas de muitos sindicatos, também são incapazes de infundir no seu próprio trabalho esse espírito organizativo acutilante. Alguns podem fazer elogios de fachada à causa da nova organização, mas silenciosamente minimizam, minam e rejeitam tudo isso dentro dos "seus" sindicatos.





Qual é a verdadeira história?





Há, no entanto, vários factos e situações dentro da campanha do Starbucks que não foram relatados ou foram deixados de fora das narrativas geradas – seja por ignorância ou agendas ocultas. Entre eles estão:





O local original de lançamento em Buffalo foi resultado de vitórias anteriores do sindicato Workers United em organizações independentes de cafés no interior do estado de Nova York, incluindo Buffalo. As campanhas anteriores provaram que os trabalhadores dessa indústria se organizariam – se tivessem possibilidade. O Conselho Regional Conjunto dos Trabalhadores Unidos de Rochester – um sindicato conflituoso, mas combativo, liderado por Gary Bonadonna Jr. – é um dos poucos sindicatos dispostos a experimentar a organização de grupos como os cafés.





O organizador sindical veterano Richard Bensinger e  o empregado de café organizador Jaz Brisack juntaram vários voluntários infiltrados para organizar o sindicato nas três primeiras lojas conquistadas em Buffalo. Eles adaptaram-se às condições da pandemia, o que acabou por ajudar a impulsionar a campanha. Também não havia multidões de "organizadores" pagos e inexperientes divulgando teorias fantásticas de organização para atrapalhar. Táticas sindicais sólidas, básicas e acutilantes foram a chave para o sucesso – juntamente com muitos e muitos sindicalistas de base educados e motivados.





A escola informal de organizadores Inside Organizer School [Escola de organização no interior] — iniciada no final de 2017 sob o guarda‑chuva do Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes (ATU) forneceu um apoio fundamental para a campanha inicial organizada pelo autor destas linhas, Chris Townsend, Richard Bensinger e o então presidente do ATU, Larry Hanley. Essa união improvável acabou por desempenhar um papel decisivo de apoio. A morte prematura de Larry Hanley, em maio de 2019, significou que ele, infelizmente, nunca viveu para testemunhar o desenrolar das campanhas do Starbucks.





Menos de um ano depois do início da incrível preparação para as primeiras vitórias eleitorais do NLRB, o sindicato – Workers United – e o seu pai, o Service Employees (SEIU) [Sindicato Internacional dos Trabalhadores dos Serviços] (3) – enviaram os seus funcionários sindicais "especialistas" colocados sob controle total de Bensinger, Brisack e dos demais voluntários de base. Surpreendentemente, os voluntários continuaram a chegar até ao momento da redação destas linhas. Apesar dos melhores esforços dos sabichões sindicais altamente pagos para atrapalhar a trajetória do sucesso – os trabalhadores do Starbucks não eram de se intimidar. A campanha anti-sindical mais cara da história travada contra os trabalhadores pelo Starbucks também falhou ao não impedir que eles se continuassem a organizar. Os principais "especialistas" sindicais com pouca experiência real, mas com todo o tipo de "ideias novas", não conseguiram controlar o movimento. Qualquer outra grande empresa debatendo-se selvaticamente contra os trabalhadores poderia encontrar forma de o destruir.





A Inside Organizer School teve um papel inicial no apoio a outras campanhas sindicais em redes de empresas, mas por vários motivos nenhuma conseguiu atingir massa crítica e espalhou-se rapidamente para outros locais. Algumas dessas campanhas resistiram, cresceram um pouco, enquanto outras foram liquidadas por patrões agressivos e anti-sindicatos. Os sindicatos estabelecidos, com a sua equipa pequena na sua maioria inexperiente e a sua incapacidade de agir de forma decidida, explicam grande parte do falhanço dessas iniciativas.





Alguns dos pensamentos que guiaram os primeiros dirigentes e trabalhadores do Starbucks foram os trabalhos escritos do lendário organizador sindical William Z. Foster. O autor deste artigo conseguiu que as obras completas de Foster, American Trade Unionism [sindicalismo americano], fossem novamente impressas pouco antes do lançamento da campanha da Starbucks. A Inside Organizer School usou esse livro como o seu texto de facto. Simultaneamente, este livro de Foster encontrou o seu caminho na vitória do sindicato da Amazon em Staten Island, em abril de 2022. Disponível em: American Trade Unionism – International Publishers (intpubnyc.com)





São possíveis grandes campanhas de organização sindical





Todas as campanhas de organização sindical seguem um de vários caminhos geralmente semelhantes. Algumas conseguem ir por diante e vencem, sempre contra probabilidades esmagadoras. Um pequeno número triunfa de alguma forma contra contra-ataques inacreditáveis dos patrões. A maioria, na verdade uma grande maioria, é eliminada na sua infância, destruída e liquidada muito antes de qualquer eleição sindical ser sequer possível. Hoje, o número de eleições do NLRB permanece em níveis historicamente baixos, envolvendo apenas um pequeno número de trabalhadores; a organização sindical pública caiu drasticamente nos últimos anos, com a organização sindical federal quase interrompida; a organização ferroviária e aérea avança lentamente, mas com resultados erráticos.





No geral, estamos envolvidos numa crise que dura há décadas, onde a maior parte do movimento sindical há muito tempo se retirou do campo de batalha da organização. Em muitos setores continuam perdas sucessivas e terríveis de sindicalizados. Com apenas alguns pontos positivos, os sindicatos agem em grande parte como a tartaruga – quando confrontados pelo Coiote. O problema é que, enquanto o Coiote vai à procura de presas mais fáceis e a tartaruga espera que ele passe, os patrões não seguem esse caminho. Eles criam a fórmula para enfraquecer e, em última instância, destruir o sindicato de uma forma ou de outra, e retirando lucros por acréscimo. A estratégia de esconder a cabeça na areia nunca sustentou o movimento sindical e, na verdade, já acelerou a nossa destruição em muitos setores.





Sindicatos e académicos ignoram o exemplo do Starbucks





Apesar de todas as suas qualidades interessantes e impressionantes, a campanha do Starbucks continua sem ser examinada pelos chamados pensadores sindicais "especialistas". E certamente ainda não está a ser imitada. Apesar do meu papel na fundação da Inside Organizing School, além de ser um observador atento do movimento em evolução da Starbucks desde o início, os meus muitos esforços nos últimos cinco anos para estimular a curiosidade sobre o movimento Starbucks dentro dos sindicatos e entre académicos do sindicalismo suscitaram pouco interesse. Com poucas exceções no nível sindical local, a maioria dos sindicatos, assim como os programas sobre sindicalismo nas faculdades e universidades, ignoraram o exemplo do Starbucks. É absurdo, mas é verdade.





Pode-se imaginar que os fundadores do movimento Starbucks, assim como a Inside Organizer School, seriam muito procurados pelos "pensadores" e "estrategas" do movimento sindical. Mas não existe essa curiosidade. Apesar do enorme sucesso do Starbucks, que é óbvio para todos, as forças que ocupam as principais posições organizativas nos sindicatos e as posições "pensantes" no mundo académico estão numa paralisia fracassada. Sem uma força disponível para os tirar do seu estupor egocêntrico, há poucas razões para acreditar que, nesta data tão tardia, eles vão de repente acordar e desenvolver uma curiosidade básica sobre um dos exemplos de organização sindical mais bem-sucedidos em décadas.





A esquerda pouco faz para promover o exemplo do Starbucks





Diante da recusa dos sindicatos e do mundo académico em considerar seriamente o exemplo do Starbucks, pode-se pensar que a comunicação social de esquerda, ou pelo menos os meios de comunicação de esquerda que cobre a atividade sindical, mostraria algum interesse útil. Mas geralmente não tem sido assim. Foram feitas algumas reportagens casuais, mas pouco mais. Escritores e autores já deram abundantemente as suas próprias opiniões sobre o "significado" do movimento Starbucks ou apresentaram factos óbvios e pouco mais. Como praticamente nenhum dos escritores possui experiência significativa em organização sindical, a escrita tem sido pouco útil para os organizadores reais no terreno. Consequentemente, a literatura que cobre o Starbucks sob a perspetiva do trabalho é escassa, carece de detalhes úteis e tem evitado em grande parte falar com os verdadeiros dirigentes das campanhas.





O SEIU [Service Employees International Union – Sindicato Internacional dos serviços] – autodenominado sindicato "progressista" e herdeiro do movimento Starbucks Workers United por via do seu sindicato subsidiário Workers United – não dedicou tempo que se visse a descobrir as origens dessa notável campanha, ou demonstrou qualquer curiosidade sobre a escola patrocinada pela ATU que influenciou o arranque inicial. Expulsando os verdadeiros arquitetos da campanha logo após a sua saída das lojas de Buffalo, o SEIU não demonstrou nenhum interesse em familiarizar-se com a história detalhada. Numa reviravolta irónica e amarga, o boicote ao Starbucks recentemente anunciado pelo SEIU é, na verdade, a tática sugerida que levou aquele sindicato a expulsar Bensinger e Brisack há 4 anos!





Embora eu não coloque a AFL-CIO no mesmo grupo de "esquerda", vale a pena mencionar que a federação sindical, composta por 65 sindicatos e 70% dos trabalhadores organizados do país, também não demonstrou praticamente nenhuma curiosidade quanto às origens do movimento Starbucks. Talvez isso se deva ao facto de o Workers United, na época do lançamento do Starbucks em 2021, não ser filiada na Federação. Mas um organizador sério poderia imaginar ao menos alguma curiosidade particular nestas circunstâncias, mas nenhuma se verificou. De qualquer forma, com o abandono pela Federação da nova organização, há poucos motivos para nos surpreendermos.





Sem curiosidade não há esperança





O exemplo da organização do Starbucks dificilmente será seguido em todas as situações. Nenhuma metodologia de organização se pode aplicar universalmente. Mas, a quase total falta de interesse sério na mecânica real da arquitetura e lançamento do movimento Starbucks demonstrada pelo movimento sindical e os seus "pensadores" mais chegados, é uma acusação contundente contra eles. Para quem leva a sério a organização numa escala mais ampla, talvez até em grande escala, é necessário examinar o exemplo do Starbucks. Pensamento sindical assético e modelos estilizados de estufa universitária não vão pôr as coisas a andar novamente. Quem tiver interesse em fazer esse trabalho de casa deve contactar-me. Posso ser contactado em cwtownsend52@gmail.com


 


(1) O Industrial Workers of the World foi fundado em 1905, nos EUA. É um sindicato revolucionário de base, anticapitalista, industrial, com forte tradição de ação direta e influência anarquista e tradeunionista. Defende a organização de todos os trabalhadores numa única grande união (One Big Union).





(2) NLRB, National Labor Relations Board [Conselho nacional das relações de trabalho], é a agência federal independente dos Estados Unidos responsável por aplicar a lei laboral privada (National Labor Relations Act, de 1935). Tem por função organizar e supervisionar eleições sindicais investigar práticas laborais ilegais cometidas por empresas ou sindicatos, emitir decisões e ordens quando há violações da lei laboral, garantir o direito dos trabalhadores a sindicalizar‑se ou a não se sindicalizar.





(3) Este sindicato abrange os trabalhadores da limpeza, saúde e serviços públicos.





Fonte: A notável revolta do Starbucks: O movimento trabalhista aprendeu alguma coisa? - MLToday, publicado e acedido em 30.08.2026


Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRly4kGga9Ps6C12O_44DfQyPqlcMW5kHyIOp2lSjQDSA&s





Tradução de TAM

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Como Bezos e os magnatas da tecnologia tornaram a ganância divina

07.09.2026



Pete Tucker



Quando Bezos comprou o Washington Post em 2013, suspeitava que as coisas mudariam, e não para melhor. Mas eu não fazia ideia de que a jornada seguiria para o espaço, onde os bilionários da tecnologia vão para tornar a ganância divina.










A vida é estranha.





Se me tivessem dito há quinze anos atrás que, como trabalho de cobertura jornalística da política de Whashington eu estaria a ler livros sobre o espaço, eu teria mandado essa pessoa dar uma volta. Mas quando Jeff Bezos comprou o Washington Post, deu início a uma sequência de acontecimentos.





Lembro-me do dia em que a venda do Washington Post foi anunciada. Estávamos em agosto de 2013 e eu estava com o meu amigo Tony Norman no nosso local habitual de falafel na U Street quando recebi um alerta no meu telemóvel a dizer que Bezos tinha acabado de comprar o Post por 250 milhões de dólares. "O quê?" disse o Tony quando eu lhe dei a notícia. Li de novo, sem acreditar também nas palavras. A família Graham, que possuía o Post há décadas, não era conhecida por querer vender a sua valiosa propriedade. Mas agora vendeu.





E naquele instante, Bezos foi transformado de bilionário fundador da Amazon no salvador do Post, se não de toda a indústria de media em declínio. Li essas opiniões polémicas com a deitar fumo pelos ouvidos. Como filho de pais que eram donos do nosso jornal local, eu estava muito ciente do papel da Amazon na destruição de jornais em todo o país — principalmente ao levar à falência negócios locais, que são o motor de qualquer jornal (e comunidade) local. O homem que pode ser responsável por destruir mais jornais do que qualquer outro no mundo, definitivamente não foi um salvador da imprensa livre.





Isso eu sabia. Mas havia muita coisa sobre o Bezos que eu não sabia. E agora que ele era dono do Post, na altura o jornal fundamental para a política local de Whashington, estava na hora de começar a ler sobre o homem.





O primeiro livro em que peguei foi The Everything Store [A loja de tudo], a reveladora biografia de Bezos escrita por Brad Stone em 2013. Oito anos depois, Stone seguiu com Amazon Unbound, [Amazon sem limites] outra obra inestimável. Mais recentemente, devorei o excelente livro de 2024 da repórter do Wall Street Journal, Dana Mattioli, The Everything War [A guerra de tudo]. Esses livros desvendaram as práticas comerciais de Bezos, muitas das quais são ilegais, ou seriam se aplicássemos as leis anti-trust neste país.


Mas há outro aspeto de Bezos que esses livros não captaram totalmente — ou seja, a forma como ele perdeu o contacto com a realidade.





Bezos realmente acredita que vai salvar a humanidade com uma jogada às três tabelas. Ele nunca escondeu isso. Como escrevi num artigo no Truthdig no ano passado:





Jeff Bezos acredita sempre que pode salvar a humanidade, mas só se conseguir colocar as indústrias pesadas da Terra na Lua, depois enviar os produtos produzidos de volta à Terra deixando a poluição para trás.





"A Terra é finita", disse um Bezos adolescente ao jornal local, "e se a economia e a população mundial quiserem continuar a crescer, o espaço é o único caminho a seguir."





"Eu ainda acredito nisso", disse Bezos quatro décadas depois, enquanto fazia a sua melhor imitação de Steve Jobs num palco escuro no Centro de Convenções de Whashington DC, com uma plateia fascinada de estudantes a assistir.





Com a população e o uso de energia a crescer exponencialmente, estamos num "caminho mau" que leva ao "racionamento", explicou Bezos. Mas não se preocupem! Com todo o fervor de um vendedor de banha da cobra, Bezos continuou: "A boa notícia é que, se nos movermos para o sistema solar, para todos os efeitos práticos, teremos recursos ilimitados. Então podemos escolher: queremos estagnação e racionamento? Ou queremos dinamismo e crescimento? Isto é uma escolha fácil."





"Podemos ter um bilião de humanos no sistema solar", disse Bezos na sua apresentação de 2019. "O que significa que teríamos mil Mozarts e mil Einsteins. Seria uma civilização incrível."





Não invejo Bezos por ter uma vida rica de fantasia. Mas isso não é fantasia para ele, é muito real. Também é muito conveniente.





As crenças curiosas de Bezos coincidem perfeitamente com os seus interesses comerciais (como a IA), que destroem o planeta. (Bom trabalho nesse aspeto; enquanto escrevo estas palavras, as florestas do Canadá estão a arder com tanta ferocidade que é desagradável respirar a mil milhas de distância na região de DC.) Ao fingir que estamos tão perto de encontrar uma solução milagrosa para os nossos males, eliminamos a necessidade de conter poluidores como a Amazon, ou enfrentar outras injustiças terrenas — dá aos homens da tecnologia um salvo-conduto para os seus pecados terrenos.





"Isto é dolorosamente evidente na forma como Jeff Bezos fala sobre génios do futuro", escreveu o jornalista científico Adam Becker no seu incisivo livro de 2025, More Everything Forever [Mais de tudo para sempre].





Ele sonha com mil Mozarts e mil Einsteins entre os seus biliões de humanos a viver no espaço. Mas ele está a negligenciar os potenciais Einsteins e Mozarts que estão a viver e a morrer na pobreza agora. Se Bezos realmente quisesse uma civilização dinâmica, poderia investir na resolução dos problemas que realmente enfrentamos. Poderia desafiar os enormes níveis de desigualdade de riqueza no mundo atual. Poderia dedicar todos os seus recursos ao combate ao aquecimento global, que também terá impactos desiguais ao redor do mundo. Em vez disso, ele vai para o espaço — e acha que isso é a melhor e mais importante coisa que pode fazer com o seu dinheiro.





Essa visão do mundo resume-se a "Não olhem para as horríveis condições de trabalho no centro de distribuição local da Amazon", escreve Becker. "Olhem antes para o foguetão brilhante. Ignorem os problemas deste mundo. Tudo será melhor no espaço."





Esse sistema de crenças — vamos chamar-lhe "a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha — mesmo que a galinha esteja do outro lado da galáxia " — não beneficia apenas Bezos, mas também outros oligarcas da tecnologia. Assim não é surpresa que eles também estejam entusiasmados com alguma variação dessa ideologia egoísta.





Um aspeto central desse pensamento é algo ironicamente chamado de "altruísmo efetivo". Alguém pode olhar para essas duas palavras e perguntar-se qual é exatamente o problema. Altruísmo é algo bom. E se for eficaz, melhor ainda. Mas, de alguma forma, a visão de mundo daí resultante incorpora o oposto do significado dessas palavras.





Cresci nos anos 80 e 90 no período de "a ganância é boa" no Condado de Westchester, Nova York. Embora eu tenha achado degradante essa visão o mundo, pelo menos ela reconhecia o seu egoísmo desenfreado. O que o altruísmo eficaz consegue fazer — tudo sob o pretexto do altruísmo — é elevar a ganância de boa para praticamente divina.





Sob essa rubrica ética, especialmente a vertente do "longotermismo", os homens da tecnologia não precisam de se preocupar em ajudar os necessitados de hoje, porque o seu brilhantismo fará um bem infinitamente maior ao elevar a vida de milhares de milhões ou até biliões de humanos do futuro.





"As pessoas do futuro contam. Podem ser muitos. Podemos melhorar a vida deles”, escreveu William MacAskill, cofundador do movimento de altruísmo eficaz, no seu livro de 2022 What We Owe the Future [O que devemos ao futuro]. "A distância no tempo é como a distância no espaço. As pessoas importam, mesmo que morem a milhares de quilómetros de distância. Da mesma forma, importam mesmo que vivam milhares de anos depois." (O livro de MacAskill foi publicado de forma desastrada precisamente quando o principal defensor do altruísmo eficaz, amigo e patrono de MacAskill, Sam Bankman-Fried, foi acusado de administrar um esquema Ponzi de criptomoedas; está agora a cumprir uma sentença de 25 anos de prisão.)





É fácil entender por que é que os bilionários da tecnologia adoram o altruísmo eficaz. Eles ignoram os oprimidos de hoje não por ganância pecaminosa, mas para responder a um apelo mais elevado, quase divino. E dedicar a sua riqueza sem precedentes a tudo o que lhes vem à mente — muitas vezes lançando foguetes fálicos no espaço — só demonstra a sua generosidade para as futuras gerações.





"Essas ideias oferecem transcendência", escreve Becker, "permitindo que os adeptos sintam que podem ignorar todas as limitações com segurança. Vão para o espaço, e podem ignorar a escassez de recursos, sem falar nas restrições legais."





Quando Bezos comprou o Post em 2013, suspeitava que as coisas mudariam, e não para melhor. Mas eu não fazia ideia de que a jornada seguiria para o espaço, onde os bilionários da tecnologia vão para tornar a ganância divina.





Ao ler o livro de Becker, veio-me à mente uma citação da falecida e inimitável colunista texana Molly Ivins. Depois de jantar com os magnatas do petróleo do seu Estado no Midland Petroleum Club, ela saiu a pensar: "Caramba, que gente boa. Ainda bem que eles não estão a comandar o mundo."





Os bilionários da tecnologia de hoje comandam o mundo, e cada vez mais o espaço também. E eles estão a usar promessas do segundo para fortalecer o seu controlo sobre o primeiro, tudo em nome do serviço à humanidade.








Fonte: https://www.counterpunch.org/2026/07/23/how-bezos-and-the-tech-bros-made-greed-godly/, publicado e acedido em 23.07.2026
Foto: https://www.seudinheiro.com/uploads/2024/07/Bilionarios.-Foto-ShutterstockReproducaoCanva-ProMontagem-Seu-Dinheiro.jpg  


Tradução de TAM

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Venezuela: os sionistas chegaram

04.09.2026

Eva Garcia

Em termos de demonstrações de força, esta foi inesperada. Nada demonstra mais "músculo" do que realizar o impensável e colocar tropas das Forças de Defesa de Israel em solo venezuelano, antes um verdadeiro caldeirão antissionista, tudo sob o pretexto repugnante e claramente ardiloso de "reconstruir" a Venezuela.

 



Um antigo provérbio palestiniano adverte os necessitados contra o recurso a soluções prejudiciais: "Não bebas veneno para matar a sede", diz o provérbio.

Palavras sábias, sem dúvida. Mas apenas uma semana após o tremor de terra , alguns estavam com os ouvidos tão entupidos com estrelas e riscas que não o ouviram, preferindo engolir um veneno pútrido ao convidar sionistas genocidas para a Venezuela como parte da resposta pós-terremoto.

Em termos de demonstrações de força, esta foi inesperada. Nada demonstra mais "músculo" do que realizar o impensável e colocar tropas das Forças de Defesa de Israel em solo venezuelano, antes um verdadeiro caldeirão antissionista, tudo sob o pretexto repugnante e claramente ardiloso de "reconstruir" a Venezuela.

Alinhada indiscutivelmente com os chefões que ditam as ordens da agenda de resposta ao terramoto na Venezuela, a demonstração de força abalou o chão debaixo dos pés dos revolucionários venezuelanos pela terceira vez numa semana, apanhando-os paralisados pelo luto nacional e incapazes de oferecer muita resistência.

Quem está aqui?

A "equipe de especialistas" que não chegava a 30 pessoas desembarcou na cidade de Valência em 1 de julho. De acordo com a retórica oficial – interprete-se como se quiser –, a delegação sionista é liderada pelo General de Brigada Elad Edri, do Comando da Frente Interna das Forças de Defesa de Israel, e pelo Embaixador de Israel no México, Yoed Magen, em representação do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Segundo alguns relatos, a equipe também inclui a Autoridade Nacional de Gestão de Emergências (parte do Ministério da Defesa de Israel) e a Agência de Identificação de Vítimas de Desastres Zaka (um grupo ultra-ortodoxo que trabalha em conjunto com a polícia israelita e já esteve envolvido em escândalos sexuais e de desinformação). Acompanham a equipe as ONG israelitas Ready for Rescue e SmartAID, uma startup de tecnologia israelita que afirma ter uma equipe de busca e resgate de 17 pessoas que, tendo chegado sete dias após o desastre, quando as atividades de primeiros socorros já estavam praticamente concluídas, estaria a trabalhar na “próxima fase da resposta humanitária” nos sistemas de telecomunicações, energia e água.

Engenheiros militares israelitas caminham entre os escombros em Caracas (Fonte: IDF)

Que não restem dúvidas: não são médicos, enfermeiros ou binómios cinotécnicos. Trata-se de uma equipe liderada por funcionários do governo israelita e das Forças de Defesa de Israel, com fortes ligações ao Ministério da Defesa e à Polícia.

A Equipe Genocídio, como foi batizada, recebeu tratamento VIP do governo de Delcy. Foi praticamente a única, entre dezenas de equipes internacionais de resposta, a ser elogiada por ela numa conferência de imprensa internacional, e reuniu-se diretamente com líderes militares e políticos venezuelanos, incluindo a própria Delcy. "Espero que possamos continuar a avançar", disse ela, agradecendo-lhes repetidamente pela presença.

Ironia repugnante

Qualquer pessoal de busca e salvamento (se é que de facto existe) na Equipe Genocídio foi amplamente ignorada nos relatos da imprensa de ambos os lados, com grande foco na sua suposta missão de “reabilitar a infraestrutura e avaliar o seu estado”. Esse mandato foi rapidamente ampliado após um pedido de Delcy ao Ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, Gideon Sa'ar, e Bibi aprovou a ideia. Os sionistas agora (supostamente) irão “mapear” e implementar um “plano de reconstrução”.


Soldados israelitas hasteiam a bandeira sionista no centro de Caracas (fonte: IDF)


A ironia dos mestres da destruição, da dor e do apartheid serem incumbidos da reconstrução da Venezuela não passou despercebida a ninguém.

Só desde 2023, as Forças de Defesa de Israel destruíram mais de 90% de todos os edifícios em Gaza, 11 000 edifícios no Líbano, lançaram 18 000 bombas no Irão e realizaram mais de 1 000 ataques aéreos e incursões na Síria. Sim, parece que eles são os indivíduos certos para a tarefa de reconstruir a Venezuela, com certeza.

Assim sendo, e considerando a tendência obscura de Israel de usar a ajuda humanitária como fachada para operações da Mossad , muitos questionam se eles realmente são quem dizem ser. Seriam agentes à caça de venezuelanos-libaneses, sírios ou palestinianos? Ou talvez queiram estabelecer uma pegada comercial no país, baseada na indústria da construção civil, para depois expandir e construir colonatos sorrateiramente?

Só o tempo dirá, mas independentemente dos seus objetivos reais, o que está por trás desta missão vai muito além da construção.

A reaproximação de Delcy com o sionismo?

Elogiando a delegação, o criminoso de guerra Bibi Netanyahu afirmou que a sua equipa está “a reconstruir ruínas e também a reconstruir relações (...) mostrando ao povo venezuelano a verdadeira face do Estado de Israel”. Hah!

A Venezuela rompeu relações com o Estado sionista em 2009, quando Hugo Chávez, astutamente, o acusou de cometer genocídio em Gaza. Desde então, não houve relações diplomáticas, negociações, comércio ou trocas. Até que Delcy (leia-se Trump) começou a dar as cartas.

A delegação liderada pelas Forças de Defesa de Israel, parte de uma resposta acelerada às "oportunidades" geradas pelo terramoto, no contexto do capitalismo de desastre na sua melhor forma e não é o primeiro estremecimento nessa mudança política profunda.

Logo após o sequestro ilegal do seu pai por tropas americanas (que também estão de volta à Venezuela) em janeiro, o filho de Maduro, Nicolasito – ele próprio um membro importante do partido de Delcy no governo, PSUV, – fez manchetes ao defender , num ato cristão evangélico, o restabelecimento das relações entre a Venezuela e Tel Aviv.

Em fevereiro, a Bloomberg noticiou que a estatal petrolífera venezuelana PDVSA – assim como o resto do aparelho estatal agora sob tutela dos EUA – tinha voltado a vender petróleo a Israel, enviando um carregamento para a refinaria de Bazan, em Haifa. A notícia, apesar de previsivelmente negada por Delcy, sugeriu de forma preocupante que a Venezuela, sob a liderança dos EUA, poderia ser uma fornecedora cúmplice de combustível para o genocídio sionista no Médio Oriente e na Ásia Ocidental.

Pouco depois, a declaração de Caracas sobre os ataques EUA-Israel ao Irão condenou a resposta de Teerão sem mencionar o bombardeamento sionista. Essa declaração foi rapidamente retirada dos canais de imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Líderes das Forças Armadas Bolivarianas apertam as mãos e trocam sorrisos com líderes das Forças de Defesa de Israel em Caracas (Fonte: IDF)


Um mês depois, em março, Delcy inovou politicamente ao enviar uma mensagem personalizada, por altura do Pessach1, à minúscula comunidade judaica da Venezuela (cerca de 4 000 pessoas) e, posteriormente, ao receber os seus líderes – incluindo o chefe da Associação Israelita da Venezuela e figura sionista de destaque, o rabino Isaac Cohen – no Palácio Presidencial, para um evento ao vivo que muitos interpretaram como uma festa para procurar investimentos, na qual ela afirmou que o país poderia ser um “santuário” para pessoas como Cohen.

Essa reaproximação encaixa-se na ofensiva continental do sionismo , que o levou a estabelecer importantes postos avançados na Argentina, Bolívia e Colômbia, aproveitando-se dos destroços da onda social-democrata conhecida como "Maré Rosa". Mas, no caso da Venezuela, certamente impactará os nossos laços históricos com importantes atores antissionistas, como os governos iraniano e turco, bem como com as consideráveis comunidades libanesa (cerca de 400 mil), síria (cerca de 1 milhão) e palestiniana (cerca de 15 mil) no país – fatores que desempenharam papéis importantes para contornar as sanções americanas no passado.

Da mesma forma, aprofunda ainda mais o abismo do tamanho do Grand Canyon entre o governo e o povo venezuelano, renegando ainda mais as raízes revolucionárias e intensificando as críticas à administração Delcy e à sua agora clara subordinação à Casa Branca.

E também denuncia (mais uma vez) o trabalho goebbelsiano das fábricas do medo da propaganda governamental, que ironicamente mobilizaram todos os recursos em 2024 para alertar o eleitorado de que a principal candidata antigoverno e ridícula lacaia pró-Israel, Maria Corina Machado – que liderava as sondagens na época – convidaria os sionistas para a Venezuela.

Contra-ataque popular

Dois anos depois, fotos de generais sionistas convidados por Delcy em Caracas, logo após bombardear Gaza ou o Líbano, causaram indignação generalizada. Para alguns apoiantes do governo , a medida ultrapassa uma linha vermelha . Para outros, é apenas mais uma prova condenatória num extenso dossiê sobre as políticas de protetorado de Delcy e o seu " domínio imperialista " sobre o país.

A Venezuela está repleta de murais pró-Palestina como este em Caracas (Fonte: Movimento de Solidariedade Venezuela-Palestina)


Mas, assim como no caso do salário mensal de US$ 1 ou da reforma da legislação laboral – que tratei em colunas anteriores do Venezuela Flex –, a presença sionista no país incomoda a consciência chavista e expõe contradições fragmentárias intrínsecas tanto dentro do PSUV, partido no governo, como entre o governo atual e as políticas de Hugo Chávez.

Embora todos nós, antissionistas, tenhamos encontrado pontos em comum com o PSUV/governo nesse campo, hoje esse mesmo antissionismo coloca-nos em forte oposição a ele. Assim, a presença da Equipe Genocídio na Venezuela apenas fortalece o diversificado bloco revolucionário antigovernamental.

Então, devemos beber veneno para matar a sede?

Sejamos claros: a “sede” da Venezuela é de outro nível. É trágica, catastrófica, e (no momento em que este texto é escrito) já deixou mais de 4 500 mortos, mais de 17 000 feridos, mais de 18 000 desalojados e um número incontável de milhares de desaparecidos. E tudo isso é agravado pela falta de preparação das autoridades venezuelanas.

Isso justifica beber o veneno sionista?

Alguém resgatado dos escombros certamente não se importa se é um colombiano, chileno, fuzileiro naval americano ou um capacete branco sírio que o salva. Mas lembremos que a Equipe Genocídio chegou quando a fase de Busca e Salvamento, que deveria salvar vidas, estava a chegar ao fim e é composta principalmente por engenheiros militares (supostamente) da segunda fase.

Assim, onde estão os cerca de 120 000 engenheiros civis venezuelanos ou aqueles de tantos outros países que enviaram ajuda após o terramoto, mas não são cúmplices de crimes de guerra? Não havia mais ninguém para fazer o trabalho, nenhuma outra maneira de saciar a sede? Porquê os sionistas?

Considerando os esforços exagerados do governo para "agradecer" à Equipe Genocídio, enquanto marginaliza tacitamente as contribuições de outras equipes no discurso público, bem como tudo o que aconteceu desde 3 de janeiro e a rápida rejeição de outras ofertas para supervisionar a reconstrução da Venezuela, só posso presumir que a presença de Israel é uma prioridade para o governo de Delcy. Ela e os seus amos– o Presidente Laranja e o seu fanático capanga cubano-americano – viram uma oportunidade para avançar com a sua agenda tóxica.

É assim que funciona o capitalismo de desastre. A sede do momento apresenta a oportunidade. A pura necessidade do desastre fornece a desculpa, e os efeitos colaterais do veneno — penetração no mercado, transferência de autoridade e recursos, afastamento de

concorrentes e encobrimento de crimes ou corrupção — são todos camuflados sob manchetes de "assistência" e a enorme dimensão da perda humana.

No entanto, como os palestinos bem sabem, o veneno é sempre tóxico, e algo me diz que ainda não compreendemos totalmente a gravidade dos efeitos colaterais dessa libertação prolongada e pútrida desse veneno sionista.

Palestina e Venezuela livres!

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1 Pessach (em hebraico “passagem”) é a festa mais importante do judaísmo que celebra a libertação dos hebreus da escravidão no Egito, tal como narrado no Livro do Êxodo.

Fonte: https://mltoday.com/venezuela-flex-the-zionists-have-arrived/, publicado em 18.07.2026 e acedido em 31.08.2026

Foto 1: https://mltoday.com/wp-content/uploads/2026/07/Vz-Israelis-at-table-1200x640.png

Foto 2: https://mltoday.com/wp-content/uploads/2026/07/Israelis-Raise-Flag-300x169.jpeg

Foto 3: https://mltoday.com/wp-content/uploads/2026/07/Vz-Isr-Shake-Hands.jpeg

Foto 4: https://mltoday.com/wp-content/uploads/2026/07/Pro-Palestine-Mural.jpeg


Tradução de TAM

Venezuela: não lhe chamem traição

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