Rafaelle Timperi
O balanço que precisamos de fazer não é sobre Caracas, mas sobre aqueles que aqui continuam a afirmar que deve ser cumprida primeiro uma etapa intermédia, que as instituições podem ser administradas enquanto os "progressistas" as governarem, e que o socialismo virá depois. Aqueles que procuram o traidor não estão a fazer o balanço. Estão à procura de uma forma de não o fazer.
O ouro de Caracas está a caminho de Nova York, e os consulados israelitas estão a reabrir após dezassete anos. Aqueles que se dizem de esquerda que procuram o momento exato da "traição" estão a evitar a verdadeira questão: o que foi o "socialismo do século XXI"?
Em 23 de setembro, do púlpito da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, agradeceu a Donald Trump "pela sua disposição em retomar as relações diplomáticas e a cooperação com a Venezuela" e reivindicou o crédito pelo "recente acordo binacional entre os Estados Unidos e a Venezuela, um dos maiores alguma vez assinados", destinado a contribuir "para o equilíbrio energético do hemisfério e da economia internacional." Ela falava em Nova York, a mesma cidade onde Nicolás Maduro está a ser julgado num tribunal federal desde janeiro. Maduro não foi mencionado nem uma única vez durante todo o discurso.
Cinco dias antes, em 18 de setembro, o Financial Times informou que aquele negócio retirava 31 toneladas de ouro venezuelano, no valor de aproximadamente 4 mil milhões de dólares, dos cofres do Banco da Inglaterra para a Reserva Federal de Nova York.
O governo interino de Delcy Rodríguez obteve o controlo legal do ouro: não pôde vendê-lo imediatamente, mas podia usá-lo como garantia para empréstimos. Três semanas antes, em 29 de agosto, Trump tinha anunciado a partir da Casa Branca "o maior negócio de petróleo da história": vinte e cinco anos, dezassete campos, aproximadamente 65 mil milhões de barris sob controlo dos EUA, um quinto das reservas comprovadas do mundo, com o Pentágono como acionista através de uma empresa privada. Em 30 de agosto, foi assinado um contrato de trinta anos para a mina de ouro Choco em El Callao com a Heeney Capital e a Mercuria. Em 11 de agosto, Caracas e Tel Aviv restabeleceram as relações consulares que tinham sido rompidas por Chávez em 2009, após uma equipe israelita ter intervindo no esforço de socorro pós-terramoto e uma delegação da AIPAC [American-Israel Public Affairs Comitee – lóbi israelita] ser recebida na capital.
Não foi um governo de direita instalado pelos ocupantes que assinou tudo isso. Foi o PSUV. Foi o vice-presidente de Maduro, empossado como presidente interino em 5 de janeiro, dois dias após 150 aviões americanos terem bombardeado o norte do país e as Forças Delta terem removido Maduro e Cilia Flores de Fort Tiuna e os ter transferido para um tribunal federal em Nova York. Vinte e nove dias depois, o mesmo presidente assinou a lei que privatiza a indústria do petróleo.
O álibi da traição
A reação predominante entre certa esquerda italiana tem sido a reiteração de um padrão testado e comprovado: a traição. Eles procuram o momento exato — a assinatura em agosto, a lei em janeiro, a posse no dia 5 — como se procurassem um pecado original.
É o método que o movimento comunista deveria ter aprendido a rejeitar há muito tempo. Todas as variações da traição, das mais cruas às mais elaboradas, tratam uma experiência política como um legado a ser preservado e a sua história como uma sequência de desvios de uma intenção original: a reflexão limita-se à procura do momento da rutura, que se torna uma falha moral antes mesmo de se tornar um facto político. Ninguém nega que existem pontos de viragem. O que se nega é que lê-los como um pecado original nos ajude a entender as razões materiais pelas quais um processo histórico seguiu numa direção em vez de seguir noutra.
Traição é uma categoria consoladora: se o problema são os homens, o modelo permanece válido. Se Delcy Rodríguez traiu, então o "socialismo do século XXI" estava certo e só deveria ser expurgado dos traidores. É a operação ideológica que permite que inúmeras organizações que se referem, mais ou menos diretamente, ao comunismo continuem a citar essa fórmula nos seus programas enquanto a sua pátria adotiva entrega as suas reservas de ouro à Reserva Federal dos EUA e os seus depósitos de ouro ao Pentágono. Defender o modelo, afinal, não significa defender Caracas: significa defender a linha política que essa palavra legitimou aqui durante vinte anos.
O que nunca foi expropriado
Em termos concretos, o "socialismo do século XXI" foi isto: um governo colocado no poder através de eleições e instalado em instituições que nunca foram tocadas, as mesmas forças armadas e o mesmo poder judiciário de antes, e generosos gastos sociais pagos com os recursos das nacionalizações da mineração e da energia. Nenhuma relação de propriedade foi anulada. As fábricas, bancos e terras permaneceram onde estavam, e com eles a classe que os possuía.
Bastava olhar para o que estava a acontecer em 2020. Na véspera das eleições parlamentares daquele mês de dezembro, para garantir o apoio dos partidos da oposição, o governo estava a cortar salários e a permitir que os capitalistas venezuelanos fizessem despedimentos em massa. O PCV tinha acabado de deixar a sua aliança com o PSUV e a formar a Alternativa Revolucionária Popular; em resposta, foi excluído dos debates televisivos e acusado pelo partido governamental de "fazer o jogo da direita". Uma redistribuição baseada nos rendimentos, que não tocava a base capitalista das relações económicas, mostrou ali a sua fraqueza: os rendimentos só precisariam de diminuir na parte dos salários, e a burguesia voltaria a ser a aliada a conquistar.
Seis anos depois, o PCV — que desde então foi judicialmente destituído do controle do seu símbolo partidário — é a única força organizada que denuncia "a nova e grave confiscação do património nacional empreendida pelo triunvirato ilegítimo", realizada "nas costas do povo venezuelano, sem transparência e fora dos controlos constitucionais": um "saque selvagem" disfarçado de "retórica tecnocrática." E fá-lo sem se alinhar com María Corina Machado. Aqueles que não estavam no governo não precisam de explicar hoje por que é que o governo assinou: esse é o ponto principal da independência de classe.
Não houve rutura, houve continuidade. O aparelho que reprimiu greves operárias, criminalizou comunistas e administrou a receita do petróleo durante uma década, fomentando o crescimento de uma burguesia dentro do Estado, perante o colapso da receita e dos atentados de janeiro, fez o que toda a burguesia faz: procurou o melhor acordo com o capital mais forte. Não traiu a sua natureza de classe, mostrou-a.
Campo “anti-imperialista” à prova dos factos
Durante anos, na Itália, a Venezuela tem sido o caso exemplar de uma posição política estruturada: a ideia de que existem Estados capitalistas "anti-imperialistas" que devem ser apoiados como adversários de Washington. Em oito meses, esse bastião tornou-se o fornecedor privilegiado da reserva estratégica dos EUA, reduzida em 41% pela guerra com o Irão, e o interlocutor consular de Israel.
Não é um paradoxo; é assim que funciona. Quando se apoia um Estado capitalista porque ele ocupa a casa certa no tabuleiro de xadrez, acaba a apoiar aqueles setores da burguesia nacional que, naquele momento, têm interesse em negociar com o rival de Washington. Mas os interesses não são fixos para sempre: o equilíbrio de poder muda, as alianças reorganizam-se, e a mesma burguesia que ontem assinou em Pequim e Moscovo hoje assina em Washington sem ter mudado a sua natureza nem um milímetro. Muda o comprador, não o vendedor.
Aqueles que construíram a identidade política daquele governo sobre o seu posicionamento geopolítico, e não sobre uma análise das relações de produção que o sustentaram, agora veem-se na obrigação de explicar a razão pela qual o bastião assinou, e fazem-no falando de capitulação: ou seja, descartando como acidente o que foi produto da estrutura.
A rutura de Chávez com Israel em 2009, no meio da Operação Cast Lead [Chumbo Fundido] (1), foi um dos atos mais louváveis dessa política externa. O facto de ter sido revertida ao fim de dezassete anos, e pelas próprias mãos dos seus herdeiros, é uma medida do valor de cargos internacionais que não estão enraizados na natureza de classe do Estado que as adota.
Nenhuma concessão, em nenhuma direção.
Nada disso ameniza o impacto da agressão. Um país foi bombardeado, o seu presidente sequestrado por comandos e julgado num tribunal estrangeiro, dezenas de soldados venezuelanos e trinta e dois cubanos foram mortos, os seus recursos minerais e energéticos foram divididos por contrato e o dinheiro depositado numa conta controlada por Washington. Este é um ato de guerra imperialista, e é o modelo que os Estados Unidos estão a construir para o continente. Não se pode manter qualquer equidistância quanto a isso e a denúncia deve ser levada aos limites, começando pelo governo e pelas empresas italianas que já estão a regressar aos campos petrolíferos venezuelanos.
Mas denunciar o imperialismo não exige inventar um socialismo que não existiu. Só uma análise materialista da verdadeira natureza do processo bolivariano nos permite compreender porque é que não teve força para resistir e porque é que a sua liderança era reciclável como administradora dos despojos. Um poder que não expropriou a burguesia não podia convocar a classe operária para o defender, porque nunca lhes deu nada para defender para além de um certo nível de rendimento.
Cuba, onde as relações de propriedade foram efetivamente derrubadas, mantém um bloqueio há sessenta e cinco anos. A comparação não se baseia nas relações de poder militar, que não são comparáveis: baseia-se apenas num ponto, ou seja, que existe uma classe ali que tem algo próprio para defender e sabe disso. Um novo século não mudou a condição básica: ou a classe trabalhadora toma os meios de produção dos patrões, ou acaba a administrar o Estado deles em seu nome.
O balanço que precisamos de fazer não é sobre Caracas, mas sobre aqueles que aqui continuam a afirmar que deve ser cumprida primeiro uma etapa intermédia, que as instituições podem ser administradas enquanto os "progressistas" as governarem, e que o socialismo virá depois. Aqueles que procuram o traidor não estão a fazer o balanço. Estão à procura de uma forma de não o fazer.
(1) A Operação Cast Lead ("Chumbo Fundido", em português) foi uma grande ofensiva militar lançada por Israel na Faixa de Gaza entre 27 de dezembro de 2008 e 18 de janeiro de 2009, no contexto do conflito israelo-palestiniano.(NT)
Fonte: Venezuela: non chiamatelo tradimento, publicado em 29.09.2026 e acedido em 10.10.2026
Foto: https://mltoday.com/wp-content/uploads/2026/10/Delcy-at-UN-podium.avif
Tradução de TAM
