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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Sobre a crise migratória em Ceuta

10.08.2026


Assessoria de Imprensa do PCTE











Entre quinta e sexta-feira, cerca de 50 mil pessoas atravessaram a fronteira por terra e mar, entrando em Ceuta vindas de Marrocos; milhares eram menores de idade. Até ao momento, foram registadas mais de 50 mortes, naquela que já é uma das piores crises nas fronteiras da Espanha. Ao longo da sexta-feira, a grande maioria regressou a Marrocos.





Estes acontecimentos podem ser interpretados como uma tática de pressão do regime marroquino nas relações entre Espanha e Marrocos, coincidindo com o fortalecimento dos laços entre Marrocos e o eixo EUA-Israel e com a nova fase de reaproximação entre Espanha e Argélia . O governo de coligação, por sua vez, atribuiu essa situação exclusivamente ao crime organizado, evitando assim qualquer ligação entre o ocorrido e as relações diplomáticas, políticas, comerciais e militares na zona. 





Perante o que aconteceu em Ceuta, que os setores mais reacionários chegaram a qualificar como "invasão", denunciamos que, se este tipo de situações pode ocorrer, é devido à situação em que se encontram grandes setores do povo marroquino, que podem ser facilmente manipulados e usados ​​em disputas entre governos e Estados capitalistas.





Da mesma forma, denunciamos que os acontecimentos recentes oferecem aos setores mais reacionários da sociedade espanhola a oportunidade de intensificar a sua campanha de xenofobia, racismo e militarização da vida do nosso país, aspeto que está intimamente vinculado ao aumento generalizado da violência estatal, não apenas nas relações entre potências, mas também no âmbito doméstico, com o objetivo de disciplinar a classe trabalhadora e mantê-la o mais dividida possível.





A classe trabalhadora migrante não pode ser um bode expiatório: as causas das dificuldades enfrentadas pela maioria trabalhadora em Espanha encontram-se no capitalismo e nos governos que o gerem. 





Perante aqueles que procuram colocar os trabalhadores nascidos em Espanha contra os que se veem forçados a abandonar os seus países, afirmamos que os nossos interesses são comuns. Não há nenhuma saída favorável à classe trabalhadora baseada no racismo, na xenofobia ou na concorrência entre trabalhadores, mas apenas através da organização e da luta conjunta contra aqueles que lucram com a nossa exploração.





Rejeitamos que a resposta a esta situação seja o destacamento militar, a repressão, as devoluções sem garantias e o endurecimento das fronteiras que transformam o Mediterrâneo e as áreas em torno de Ceuta e Melilla numa vala comum. Exigimos o respeito pelos direitos fundamentais de todas as pessoas, cuidados dignos para os menores e a investigação das circunstâncias que envolveram as mortes.





Ao mesmo tempo, denunciamos a utilização da população migrante por parte do governo marroquino como instrumento de pressão política, bem como a responsabilidade do governo espanhol e da União Europeia, cujas relações económicas, políticas e militares contribuem para perpetuar a pobreza, a dependência e a falta de perspetivas que empurram milhares de pessoas a abandonar as suas casas.





Apelamos à classe trabalhadora e aos setores populares a não se deixarem influenciar pela propaganda reacionária. Frente ao racismo, à militarização e à divisão, devemos construir a solidariedade internacionalista e a unidade de todos os trabalhadores, independentemente da sua origem ou nacionalidade.


Contra o racismo, a guerra e a exploração, união da classe trabalhadora!





Madrid, dia 1 de agosto de 2026.





Assessoria de Imprensa do PCTE








Fonte: https://www.pcte.es/notas-de-prensa/ante-la-crisis-migratoria-en-ceuta/, publicada e acedida em 01.08.2026


Foto: https://outraspalavras.net/wp-content/uploads/2026/08/photo_5154531616943181121_y.jpg





Tradução de TAM

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A China e as operações de paz

Carlos Branco, Major-General


 

De um papel marginal, Pequim passou a ser o principal contribuinte para as operações de paz da ONU, combinando a presença militar com o apoio financeiro e logístico. Ao contrário dos EUA, que se limitam a financiar as operações da Organização, a China financia-as e contribui com tropas e polícias. Esta diferente abordagem reflete doutrinas e objetivos estratégicos que não podem ser dissociados das iniciativas políticas de Pequim para consolidar o seu estatuto de grande potência[...]




Apesar das operações de paz da ONU terem diminuído em cerca de 40% na última década, vítimas das fortes tensões entre as grandes potências, e terem de viver com orçamentos cada vez mais reduzidos, em grande parte responsabilidade da Administração Donald Trump, a China continua a dedicar-lhes uma grande atenção mantendo a política iniciada nos anos 1990, cujos fundamentos políticos e estratégicos importa perceber.

De um papel marginal, Pequim passou a ser o principal contribuinte para as operações de paz da ONU, combinando a presença militar com o apoio financeiro e logístico. Ao contrário dos EUA, que se limitam a financiar as operações da Organização, a China financia-as e contribui com tropas e polícias. Esta diferente abordagem reflete doutrinas e objetivos estratégicos que não podem ser dissociados das iniciativas políticas de Pequim para consolidar o seu estatuto de grande potência, projetar uma imagem de “responsabilidade internacional” e promover os seus interesses estratégicos, no quadro multilateral, matéria relativamente à qual os EUA têm mostrado ceticismo e afastamento.

A política externa chinesa combina o multilateralismo com a ação bilateral, especialmente em África, onde se concentra uma parte significativa dos seus interesses económicos e de segurança. A cooperação multilateral no quadro da ONU através das operações de paz proporciona e potencia a cooperação bilateral fora do quadro da Organização, em que Pequim também participa, mas de forma diferente, focando-se principalmente no apoio financeiro, diplomático e na capacitação de forças, mas não com tropas. Vão longe os tempos em que a política externa chinesa se resumia a apoiar os movimentos de libertação nacional em África.

No quadro da ONU

A participação chinesa em operações de paz teve início em 1990, quando Pequim enviou observadores militares para a UNTSO (Israel). Em 1992, essa participação aumentou com o envio de uma unidade de engenharia militar, com cerca de 400 militares, para a UNTAC (Camboja). Desde então, a China tem vindo a expandir a sua contribuição, passando de contingentes de 100 militares, em 2000, para mais de 1 600 capacetes azuis, em 2026 (MNE da RPC, março), destacados em oito missões (Líbano, Sudão do Sul, Abiei (região rica em petróleo de 10 546 km² na fronteira entre o Sudão e o Sudão do Sul) e República Democrática do Congo), além de um pequeno número de oficiais de estado-maior em funções no quartel-general da ONU, em Nova Iorque, e observadores militares contribuindo para estas operações com mais tropas do que os restantes membros permanentes do Conselho de Segurança juntos.

A China mantém ainda em permanente estado de prontidão uma força para operações de paz com oito mil efetivos, composta por 28 unidades profissionais de 10 tipos, incluindo infantaria, equipas médicas, unidades de reação rápida, helicópteros e engenheiros, prontas para serem rapidamente enviadas para zonas de operações de paz, no estrangeiro.

No total, mais de 50 mil capacetes azuis chineses já participaram em 29 operações de paz da ONU. A China encontra-se no 8.º lugar (30ABR2026) entre os países contribuintes com tropas (e pessoal uniformizado) para as operações de paz da ONU, e é o seu segundo maior financiador. Em 2026, Os EUA contribuíram com cerca de duas dúzias de pessoas, ficando fora do top 80 dos países contribuintes com forças.

Tradicionalmente, os países em desenvolvimento fornecem a maioria das boots on the ground [botas no terreno, i.é, soldados], enquanto os países desenvolvidos preferem pagar os custos das operações. A China faz as duas coisas, aumentando o seu soft power combinando envio de tropas com financiamento.


No ciclo 2024–2025, Pequim contribuiu com 18,7% (cerca de $1,04 mil milhões) do orçamento da ONU dedicado às operações de paz, apenas atrás dos EUA, com cerca de 27%, longe dos 6-10%, do ciclo 2016-2018. No ciclo 2025–2026, essa contribuição dilatou para 23,7% (cerca de 1,5 mil milhões), sendo em ambos os ciclos a segunda maior contribuição. Pequim tem honrado integralmente as suas contribuições para as operações de paz, sem dívidas de longo prazo pendentes, o que contrasta com os EUA que têm uma contribuição mais elevada, mas mantêm uma dívida de cerca de 2,4 mil milhões de dólares há vários anos.

Pequim tem participado nestas operações com unidades de infantaria, engenharia, desminagem, equipas médicas, unidades de helicópteros, unidades de reação rápida, observadores militares e oficiais de estado-maior, principalmente em África, onde nalguns períodos chegou a concentrar mais de 80% dos seus capacetes azuis: na UNMISS (Sudão do Sul) com um batalhão de infantaria (cerca de mil soldados); na MONUSCO (República Democrática do Congo), na MINUSMA (Mali), e no Darfur (Sudão), entre outras. Além da segurança, as tropas chinesas têm estado envolvidas na criação de infraestruturas, na assistência médica, no apoio humanitário e na ajuda ao desenvolvimento local. 

Fora do quadro da ONU

Pequim tem evitado participar em operações de paz fora do quadro da ONU, mas quando o faz a sua ação centra-se no treino e na capacitação de forças africanas focando-se principalmente em missões de estabilização alinhadas com os seus interesses económicos em África e com a sua iniciativa “Uma Faixa uma Rota”; usando essas operações de paz para ganhar legitimidade internacional e influência no Sul Global.

Pequim tem desenvolvido uma cooperação significativa e multifacetada com a União Africana (UA) e com as organizações africanas sub-regionais, especialmente desde o início dos anos 2000, com ênfase no apoio institucional, económico, infraestrutural e, em menor grau, de segurança. Por exemplo, apoiou financeiramente a missão da UA, no Darfur, a missão na Somália e apoiou a designada Arquitetura Africana de Paz e Segurança (APSA), envolvendo-se no treino e na capacitação de forças de paz africanas, assim como no seu apoio logístico/equipamento, atividades alinhadas com a iniciativa “Cooperação China-África em Segurança”.

Para a UA, a China é um parceiro chave que preenche lacunas de financiamento e de infraestruturas, alinhada com a visão de uma “África integrada, próspera e pacífica”. Pequim financiou integralmente (com cerca de $200 milhões) a construção da sede da UA, em Adis Abeba (2012), abriu uma missão permanente junto da UA (2005) e esta reciprocou com uma missão permanente na China, mantendo assim um diálogo estratégico constante. Para a China, a UA serve como multiplicador de influência continental, complementando as abordagens bilaterais.

Pequim alinhou explicitamente os seus projetos com os objetivos da “Agenda 2063” e com o “Programa para o Desenvolvimento de Infraestruturas em África” (PIDA – transportes, energia, tecnologias da informação e comunicação e água transfronteiriça) da UA. Muitos planos de ação do Fórum de Cooperação China-África(FOCAC), uma plataforma de cooperação crucial nas relações entre a China e os países africanos, como o de 2025-2027, enfatizam esta sinergia. A China é o maior parceiro comercial e investidor de África. Esta cooperação alarga-se a bolsas de estudo, centros de pesquisa conjuntos, cooperação em ciência e tecnologia. Em janeiro de 2026, teve lugar o 9.º Diálogo Estratégico China-UA, em Adis Abeba, reforçado através do FOCAC.

Ainda no âmbito da paz e segurança foi lançada, em 2012, a Iniciativa “China-África Parceria para a Paz e Segurança”, um  quadro de cooperação lançado pela China com os países africanos e a UA para fortalecer a colaboração nos domínios da paz, segurança, estabilização e prevenção de conflitos, a qual inclui quatro componentes principais: o “Fundo China-África para Paz e Segurança”, que financia operações de manutenção da paz, formação e apoio a operações; o “Fórum China-África de Paz e Segurança”, que envolve a participação de ministros da defesa, militares e especialistas para discutir assuntos de segurança; o apoio à APSA, que inclui o apoio à força africana de resposta rápida, às operações de paz da UA e às designadas soluções “africanas para problemas africanos”; e a “Assistência militar e formação” com o treino de militares e polícias africanos, doação de equipamentos, realização de exercícios conjuntos e apoio logístico.

Enquanto os EUA, céticos em relação à eficácia de algumas operações de paz da ONU, têm preferido intervenções multilaterais ad hoc ou bilaterais, como no Afeganistão ou no Iraque, a atuação da China fora do quadro da ONU, como no caso da UA, tem sido predominantemente de apoio material e alinhamento estratégico, concentrada no desenvolvimento, com uma presença crescente nos domínios da governação e da segurança, reforçando as suas posições no Sul Global e alimentando uma relação que tem vindo a evoluir para uma coordenação institucional cada vez mais intensa.

O entendimento dos fundamentos estratégicos da importância atribuída por Pequim às operações de paz, na sua maioria em África, insere-se numa ação política de maior envergadura e abrangência, inserida na “Parceria Estratégica e Cooperativa Abrangente” (Joanesburgo, 2015), que marcou uma nova fase na interação com África: maior coordenação política, apoio mútuo em fóruns internacionais, criar sinergias entre a “Agenda 2063” africana e as iniciativas chinesas (como a “uma faixa, uma rota”), e a cooperação em paz e segurança. 

Esse envolvimento reflete um pensamento radicalmente diferente do norte-americano. A China e os EUA têm desempenhado papéis muito distintos no que respeita às operações de paz, tanto no quadro como fora do quadro da ONU. O projeto chinês aposta numa parceria estratégica com África assumindo um compromisso com o multilateralismo africano e a integração continental. As operações de paz, independentemente do quadro em que se realizem, são utilizadas por Pequim para abrir as portas para uma cooperação mais intensa e abrangente em múltiplos domínios, servindo a segurança apenas como o catalisador específico dessas relações.

NE: Os editores consideram que todo o processo aqui descrito dá uma ampla panorâmica dos desenvolvimentos económicos, políticos e militares da China como grande potência imperialista – a maior dentro de pouco tempo. Tal processo interessa ao capital e à burguesia chineses e não perspetiva, por si só, um mundo  pacífico ou o fim da exploração capitalista.

publicado e acedido em 30.06.2026 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Venezuela: reflexões sobre o dia em que a Terra tremeu

Eva Garcia, jornalista venezuelana


Tantas pessoas perderam alguém ou algo. Mas o impacto das perdas materiais e humanas não será sentido igualmente por todos. A burguesia terá sempre mais facilidade em aceder ao atendimento médico de emergência particular, reunir famílias, pagar assistência psicológica, reconstruir casas, repor bens danificados e – sim – arcar com custos funerários exorbitantes, inacessíveis para a maioria dos trabalhadores venezuelanos.






A terra não tremeu apenas. Ela agitou-se. Ela revoltou-se. Ela rugiu.


Ainda não está claro quantas pessoas morreram, ficaram feridas ou perderam os seus bens materiais. 1 000, 2 000, 5 000, 10 000…


A partir de certo ponto, os números exatos desaparecem no horizonte, tornando-se indistintos e perdendo toda a forma depois de serem consumidos por uma densa névoa de luto e tristeza nacional.


A nossa profunda necessidade de agir, de fazer algo, impulsiona-nos a ultrapassar as barreiras da dor coletiva e a afugentar a tristeza dilacerante que atualmente paralisa todos os venezuelanos.


Eu estava em casa quando senti o terramoto – estava a descansar poucas horas depois de enviar a minha última coluna para o MLT, aliás – mas tive a sorte de não me tornar apenas mais uma estatística. No entanto, como a maioria das pessoas aqui, tenho amigos, familiares e camaradas na área afetada que ainda não informaram se estão vivos ou… não.


A perda humana é irreparável e, assim como outros desastres venezuelanos, como a tragédia de Vargas em 1999 ou o terramoto de 1967 , ficará marcada na história pela sua magnitude. Mas também será lembrada pelas histórias individuais de heroísmo e bravura dos homens e mulheres catapultados em milésimos de segundo, de uma fila de supermercado ou de um encontro com amigos para cenários apocalípticos de pura sobrevivência. A mãe que morreu a salvar o seu recém-nascido. O cão que acompanhou o seu dono sob os escombros durante três dias. E há inúmeros outros exemplos. 


A classe trabalhadora venezuelana é resiliente, corajosa e possui corações enormes repletos de solidariedade. Sobrevivemos a muitos traumas: cheias, apagões, repressão, golpes de Estado, explosões, deslizamentos de terras, salários de um dólar por mês, campanhas de bombardeamento dos EUA e, agora, um terramoto devastador. Enfrentámos todos esses traumas, em parte, estendendo a mão aos nossos vizinhos, aos necessitados, e deixando de lado as diferenças para seguir em frente com a humanidade, e não com as divisões raciais ou de classe, em primeiro plano – sempre com o nosso humor característico e sorrisos largos, apesar da gravidade do momento. 


Também sabemos organizar-nos. Embora as comunas e os conselhos comunitários praticamente já não existam, surgiram brigadas e comités, as doações chegam aonde precisam de chegar, as comunidades unem-se para superar as dificuldades que a vida nos impõe. Essa disciplina caótica aprendêmo-la com Hugo Chávez.


Mas este foi o nosso primeiro desastre natural na era das redes sociais, em que imagens chocantes viajam milhares de quilómetros em segundos, transportando até o observador mais distante para o epicentro do esforço de resgate, intensificando a nossa resposta emocional.


Esta é também a primeira tragédia em massa desde que 25% da população emigrou. De longe, a impossibilidade de ajudar ou localizar entes queridos só intensifica a frustração e a angústia. Os meus sentimentos estão com aqueles que sofrem a milhares de quilómetros de distância, isolados e procurando nas redes sociais a foto de um familiar.


Tantas pessoas perderam alguém ou algo. Mas o impacto das perdas materiais e humanas não será sentido igualmente por todos. A burguesia terá sempre mais facilidade em aceder ao atendimento médico de emergência particular, reunir famílias, pagar assistência psicológica, reconstruir casas, repor bens danificados e – sim – arcar com custos funerários exorbitantes, inacessíveis para a maioria dos trabalhadores venezuelanos. Quanto ao resto, teremos de nos contentar com os “ bónus ” de US$ 150 já anunciados por Delcy, que claramente não se comparam com o valor das perdas materiais.


Ainda é muito cedo para pensar em reconstruir os danos materiais monumentais ou questionar quem arcará com os custos, pois ainda há pessoas presas sob os escombros. Certamente, é muito cedo para avaliar a resposta do governo e da comunidade internacional. O que é certo é que nenhum governo, nenhum país, nenhum povo jamais estaria totalmente preparado para um desastre desta magnitude. Contudo, questões importantes serão – e devem ser – levantadas no devido tempo.


Apesar dos esforços nobres, o Estado venezuelano está em dificuldades – quem não estaria? Mas anos de subinvestimento no nosso sistema de saúde, emigração em massa e fuga de cérebros, particularmente do setor médico, colapso dos sistemas de eletricidade, água e telecomunicações, corrupção, sim, corrupção, e, claro, sanções, certamente não ajudam a nossa capacidade de resposta. 


Já tivemos uma amostra de como este governo de protetorado pretende lidar com a tragédia: ajuda liderada pela NATO, fundos do FMI , o Comando Sul na coordenação (“Obrigado, Donald Trump”, disse Delcy), o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA em campo ,   o Starlink (“Obrigado, Elon Musk”, disse Delcy) e o X  a ser reintroduzido no país, o nosso “protetor” a “proteger-nos”. Entretanto, aqueles que antes eram nossos “aliados” no tempo de Chávez contentam-se em enviar mensagens inúteis de boa vontade, enquanto Trump alça a perna e marca território como o cão que é.


Com o tempo, também será preciso questionar as construções da Venezuela: os regulamentos de construção ineficazes que existem nalgum arquivo cheio de mofo nalgum escritório governamental escuro e empoeirado; os arranha-céus erguidos rapidamente na década de 1960, no auge do boom do petróleo; as barracas de lata improvisadas nas favelas, todas sem condições, manutenção ou preparação para um desastre desta magnitude.


Como é que a nossa economia, já fragilizada, recuperará disto? O estado de La Guaira abriga os principais aeroportos e portos marítimos da Venezuela, além de possuir uma enorme indústria turística. Por outro lado, a paralisação dos processos produtivos nos principais setores industriais dos estados de Caracas, Aragua e Carabobo, enquanto os trabalhadores, e bem, atuam em cozinhas comunitárias, na remoção de entulhos ou na assistência aos feridos, custará milhões por hora.


São essas as coisas que o capitalismo valoriza, não a perda de vidas humanas (força de trabalho) que são 'facilmente' substituídas pelo Exército de Reserva. Seríamos ingénuos se pensássemos que a ajuda de 'boa vontade' de Washington é movida por algo além da exploração macabra de uma oportunidade manchada de sangue na Venezuela atual. Vislumbra uma brecha. Vê penetração no mercado, investimento, reconstrução, afastamento dos concorrentes, exploração e, em última análise, uma enorme mais-valia.


À medida que começamos a superar este desastre, as medidas de emergência temporárias, necessárias e vitais, transformam-se em ocupação a longo prazo. As relações evoluem. As posições de mercado fortalecem-se. As dívidas acumulam-se.


Se não acreditam em mim, basta perguntar ao povo de Gaza ou do Haiti.


Eu poderia escrever 10 000 palavras sobre o terramoto e a política do período imediatamente posterior, sobre o olhar de Delcy para o norte ou sobre a declaração de Trump dizendo querer proteger as pessoas no " nosso hemisfério ".


Eu também poderia escrever sobre as teorias da conspiração, como a vingança da Pachamama pelos danos que causámos no Arco Mineiro do Orinoco ou o suspeito exercício de "evacuação de emergência" da embaixada dos EUA apenas 32 dias antes do tremor de terra, mas haverá tempo para isso.


Por ora, os nossos pensamentos devem estar com as vítimas, as suas famílias, amigos e camaradas. Hoje, devemos manter a humanidade em primeiro lugar nas nossas mentes. Força Venezuela.




 Na cultura andina, Pachamama é a divindade máxima que representa a Mãe Terra.

A "vingança de Pachamama" refere-se à reação destrutiva da natureza — como secas, terramotos, cheias e poluição — em resposta à exploração, destruição e falta de respeito dos seres humanos  pela Terra.



Tradução de TAM

Do socialismo utópico ao socialismo Científico (1892) - (Excerto do II capítulo)

Friedrich Engels 28.08.2026 Desse modo o socialismo já não aparecia como a descoberta casual desta ou daquela cabeça genial, mas como o pro...