sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Do socialismo utópico ao socialismo Científico (1892) - (Excerto do II capítulo)

Friedrich Engels





28.08.2026



Desse modo o socialismo já não aparecia como a descoberta casual desta ou daquela cabeça genial, mas como o produto necessário da luta entre as duas classes formadas historicamente: o proletariado e a burguesia. A sua missão já não era elaborar um sistema o mais perfeito possível da sociedade, mas investigar o processo histórico-económico de que, forçosamente, tinham de brotar essas classes e o seu conflito, descobrindo os meios para a solução desse conflito na situação económica assim criada.










[…] a ciência autêntica da natureza data somente da segunda metade do século XV e, desde então, não fez senão progredir a ritmo acelerado. A dissecação da natureza nas suas partes isoladas, a separação dos diversos processos e objetos naturais em determinadas categorias, o estudo do interior dos corpos orgânicos segundo as suas múltiplas configurações anatómicas, foram a condição fundamental a que obedeceram os gigantescos progressos realizados, durante os últimos quatrocentos anos, no conhecimento científico da natureza. Esses métodos de investigação, porém, transmitiram-nos, ao lado disso, o hábito de observar as coisas e os processos da natureza isoladamente, subtraídos à conexão do grande todo; portanto, não na sua dinâmica, mas estaticamente; não como substancialmente variáveis, mas constantes; não na sua vida, mas na sua morte. Por isso, esse método de observação, ao transplantar-se, com Bacon e Locke, das ciências naturais para a filosofia, determinou a estreiteza específica característica do último século: o modo metafísico de pensar.





Para o metafísico, as coisas e as suas representações mentais, os conceitos, são objetos de investigação isolados, fixos, rígidos, considerados um após outro, de per si, constantes, imóveis, dados de uma vez por todas. Pensa só em antíteses, sem meio-termo possível; para ele, das duas uma: sim, sim; não, não; o que for além disso, é pernicioso. Para ele, uma coisa existe ou não existe; um objeto não pode ser ao mesmo tempo o que é e outro diferente. O positivo e o negativo excluem-se em absoluto. A causa e o efeito revestem também, a seus olhos, a forma de uma rígida antítese. À primeira vista, esse método de raciocínio parece-nos extremamente razoável, porque é o do chamado senso comum. Mas o próprio senso comum - companhia respeitável dentro das suas quatro paredes - vive peripécias verdadeiramente maravilhosas quando se aventura pelos caminhos amplos da investigação; e a maneira metafísica de pensar, embora legítima e até necessária em largas esferas cuja extensão varia segundo a natureza do objeto, tropeça sempre, cedo ou tarde, numa barreira, ultrapassada a qual se torna incompleta, estreita, unilateral, abstrata, e se perde em insolúveis contradições, pois, absorvido pelas coisas isoladas, não consegue perceber a sua conexão; preocupado com a sua existência, não atenta na sua origem, no seu ser, o seu devir e o seu desaparecimento; obcecado pelas árvores, não consegue ver a floresta. Na realidade de cada dia, sabemos, por exemplo, e podemos dizer com toda certeza se um animal existe ou não; porém, num exame mais rigoroso, verificamos que às vezes o problema se complica consideravelmente, como sabem muito bem os juristas, que tanto e tão inutilmente se têm atormentado por descobrir um limite racional a partir do qual deva a morte do filho no ventre materno ser considerada um assassinato; nem é fácil tampouco determinar rigidamente o momento da morte, uma vez que a fisiologia demonstrou que a morte não é um fenómeno repentino, instantâneo, mas um processo muito longo. Do mesmo modo, todo o ser orgânico é, a qualquer instante, ele mesmo e outro; a todo instante, assimila matérias absorvidas do exterior e elimina outras do seu interior; a todo o instante, morrem certas células e nascem outras do seu organismo; e no transcurso de um período mais ou menos demorado a matéria de que é formado renova-se totalmente, e novos átomos de matéria vêm ocupar o lugar dos antigos, pelo que todo o ser organizado é, ao mesmo tempo, o que é e outro diferente. Da mesma maneira, observando as coisas detidamente, verificamos que os dois polos de uma antítese, o positivo e o negativo, são tão inseparáveis quanto antitéticos um do outro e que, apesar de todo o seu antagonismo, se penetram reciprocamente; e vemos que a causa e o efeito são representações que somente regem, como tais, na sua aplicação ao caso concreto, mas que, examinando o caso concreto na sua conexão geral do universo, se juntam e se diluem na ideia de uma trama universal de ações e reações, em que as causas e os efeitos mudam constantemente de lugar e em que o que agora ou aqui é efeito adquire em seguida ou ali o caráter de causa, e inversamente.





Nenhum desses fenómenos e métodos de pensamento se encaixa no quadro do pensamento metafísico. Pelo contrário, para a dialética, que compreende as coisas e as suas representações conceptuais essencialmente na sua conexão, na sua concatenação, na sua dinâmica, no seu processo de aparecimento e desaparecimento, fenómenos como os expostos não são mais que outras tantas confirmações do seu próprio método. A natureza é a prova da dialética, e as modernas ciências naturais oferecem-nos para essa prova um acervo de dados extraordinariamente copiosos e enriquecido a cada dia que passa, demonstrando com isso que a natureza se move, em última instância, pelos caminhos dialéticos e não pelas veredas metafísicas, que não se move na eterna monotonia de um ciclo constantemente repetido, mas percorre uma verdadeira história. Aqui é necessário citar Darwin, em primeiro lugar, que, com a sua prova de que toda a natureza orgânica existente, plantas e animais, e entre eles, como é lógico, o homem, é o produto de um processo de desenvolvimento de milhões de anos, assestou na conceção metafísica da natureza o mais rude golpe. Até hoje, porém, os naturalistas que souberam pensar dialeticamente podem ser contados com os dedos, e esse conflito entre os resultados descobertos e a maneira tradicional de pensar põe a nu a ilimitada confusão que reina presentemente na teoria das ciências naturais e que constitui o desespero de mestres e discípulos, de autores e leitores.





Somente seguindo o caminho da dialética, não perdendo jamais de vista as inumeráveis ações e reações gerais do devir e do perecer, das mudanças de avanço e retrocesso, chegamos a uma conceção exata do universo, do seu desenvolvimento e do da humanidade, assim como do reflexo desse desenvolvimento nas cabeças dos homens. E foi esse, com efeito, o sentido em que começou a trabalhar, desde o primeiro momento, a moderna filosofia alemã. Kant iniciou sua carreira de filósofo dissolvendo o sistema solar estável de Newton e a sua duração eterna - depois de ser dado o famoso impulso inicial - num processo histórico: no nascimento do Sol e de todos os planetas a partir de uma massa nebulosa em rotação. Daí, deduziu que essa origem implicava também, necessariamente, a morte futura do sistema solar. Meio século depois a sua teoria foi confirmada matematicamente por Laplace e, ao fim de outro meio século, o espectroscópio veio demonstrar a existência no espaço daquelas massas incandescentes de gás, em diferente grau de condensação.





A filosofia alemã moderna encontrou a sua conclusão no sistema hegeliano, no qual, pela primeira vez - e aí está seu grande mérito - se concebe todo o mundo da natureza, da história e do espírito como um processo, isto é, em constante movimento, mudança, transformação e desenvolvimento, tentando além disso ressaltar a intima conexão que preside esse processo de movimento e desenvolvimento. Deste ponto de vista, a história da humanidade já não aparecia como um caos inóspito de violências absurdas, todas igualmente condenáveis diante do foro da razão filosófica hoje já madura, e boas para serem esquecidas quanto antes, mas como o processo de desenvolvimento da própria humanidade, que cabia agora ao pensamento acompanhar nas suas etapas graduais e através de todos os desvios, e demonstrar a existência de leis internas que orientam tudo aquilo que à primeira vista poderia parecer obra do acaso cego.





Que o sistema de Hegel não tenha resolvido o problema que se propunha é aqui indiferente. O seu mérito, que marca a época, consistiu em tê-lo proposto. E este é daqueles problemas que nenhum homem sozinho pode resolver. E embora fosse Hegel, como Saint-Simon, a cabeça mais universal do seu tempo, o seu horizonte achava-se circunscrito, em primeiro lugar, pela limitação inevitável dos seus próprios conhecimentos e, em segundo lugar, pelos conhecimentos e conceções da sua época, limitados também em extensão e profundidade. Deve-se acrescentar a isto uma terceira circunstância. Hegel era idealista; isto é, para ele as ideias da sua cabeça não eram imagens mais ou menos abstratas dos objetos ou fenómenos da realidade, pelo contrário, para ele as coisas e o seu desenvolvimento afiguravam-se-lhe como projeções realizadas da "Ideia", que já existia, de algum modo, antes de existir o mundo. Assim, foi tudo posto de cabeça para baixo, e a conexão real do mundo apresentava-se completamente às avessas. E por mais exatas e mesmo geniais que fossem várias das conexões concretas concebidas por Hegel, era inevitável, pelos motivos que acabamos de apontar, que muitos dos seus detalhes tivessem um caráter artificial, remendado, construído; numa palavra, falso. O sistema hegeliano foi um aborto gigantesco, mas o último de seu género. De facto, continuava a sofrer de uma contradição interna incurável: por um lado tinha como pressuposto iniciala conceção histórica segundo a qual a história humana é um processo de desenvolvimento que, pela sua natureza não pode encontrar na chamada descoberta da verdade absoluta a sua conclusão intelectual; mas por outro lado afirma ser a essência mesma desta verdade absoluta. Um sistema universal e definitivamente plasmado do conhecimento da natureza e da história é incompatível com as leis fundamentais do pensamento dialético - que não exclui, mas longe disso implica que o conhecimento sistemático do mundo exterior na sua totalidade possa progredir de geração em geração a passos de gigante.





A consciência da total inversão em que incorria o idealismo alemão levou necessariamente ao materialismo; mas, veja-se bem, não àquele materialismo puramente metafísico e exclusivamente mecânico do século XVIII. Em oposição à simples repulsa, ingenuamente revolucionária, de toda a história anterior, o materialismo moderno vê na história o processo de desenvolvimento da humanidade, cujas leis dinâmicas é missão sua descobrir. Face à conceção da natureza que imperava entre os franceses do século XVIII, assim como em Hegel, em que esta era concebida como um todo permanente e invariável, que se movia dentro de ciclos estreitos, com corpos celestes eternos, tal como Newton os representava, e com espécies invariáveis de seres orgânicos, como ensinara Lineu, o materialismo moderno reúne os novos progressos das ciências naturais, segundo os quais a natureza tem também a sua história no tempo, e os mundos, assim como as espécies orgânicas que em condições propícias os habitam, nascem e morrem, e os ciclos, no grau em que são admissíveis, revestem dimensões infinitamente mais grandiosas. Tanto num como no outro caso, o materialismo moderno é substancialmente dialético e já não precisa de uma filosofia superior às demais ciências. Desde o momento em que cada ciência tem de prestar contas da posição que ocupa no quadro universal das coisas e do conhecimento dessas coisas, já não há margem para uma ciência especialmente consagrada ao estudo das conexões universais. Da filosofia anterior, com existência própria, só permanece de pé a teoria do pensamento e das suas leis: a lógica formal e a dialética.





No entanto, enquanto essa revolução na conceção da natureza só se pôde impor na medida em que a investigação lhe fornecia os materiais positivos de conhecimento correspondentes, já há muito tempo se tinham revelado certos factos históricos que imprimiram uma mudança decisiva na conceção da história. Em 1831, estala em Lyon a primeira insurreição operária, e de 1838 a 1842 atinge o seu auge o primeiro movimento operário nacional: o dos cartistas ingleses. A luta de classes entre o proletariado e a burguesia passou a ocupar o primeiro plano da história dos países europeus mais avançados, ao mesmo tempo em que se desenvolvia neles, por um lado, a grande indústria, e, por outro, o domínio político que a burguesia recentemente conquistara. Os factos refutavam cada vez mais rotundamente as doutrinas burguesas da identidade de interesses entre o capital e o trabalho e da harmonia universal e o bem-estar geral do povo como fruto da livre concorrência. Todas estas coisas não podiam ser ignoradas, nem tão-pouco era possível ignorar o socialismo francês e inglês, sua expressão teórica, se bem que muito imperfeita . Mas a velha conceção idealista da história, que ainda não estava suplantada, não conhecia as lutas de classes baseadas em interesses materiais, nem conhecia interesses materiais de qualquer espécie; para ela a produção, bem como todas as relações económicas, só existiam acessoriamente, como elementos secundários dentro da "história da civilização".





Os novos factos obrigaram à revisão de toda a história anterior, e tornou-se então evidente que, com exceção dos estádios primitivos, toda a história anterior era a história das lutas de classes, e que essas classes sociais em luta entre si eram em todas as épocas fruto das relações de produção e de circulação, isto é, das relações económicas da sua época; que a estrutura económica da sociedade constitui, portanto, em cada caso, a base real que, em última instância, explica toda a superestrutura integrada pelas instituições jurídicas e políticas, assim como pela ideologia religiosa, filosófica e outra de cada período histórico. Hegel libertara da metafísica a conceção da história, tornando-a dialética; mas a sua interpretação da história era essencialmente idealista. Agora, o idealismo fora expulso do seu último reduto: a conceção da história -, substituída por uma conceção materialista da história, com o que se abria o caminho para explicar a consciência do homem pela sua existência, e não a sua existência pela sua consciência, que era até então o tradicional.





Desse modo o socialismo já não aparecia como a descoberta casual desta ou daquela cabeça genial, mas como o produto necessário da luta entre as duas classes formadas historicamente: o proletariado e a burguesia. A sua missão já não era elaborar um sistema o mais perfeito possível da sociedade, mas investigar o processo histórico-económico de que, forçosamente, tinham de brotar essas classes e o seu conflito, descobrindo os meios para a solução desse conflito na situação económica assim criada. Mas o socialismo anterior era tão incompatível com essa nova conceção materialista da história, como a conceção da natureza do materialismo francês o era com a dialética e as novas ciências naturais. Com efeito, o socialismo anterior criticava o modo de produção capitalista existente e suas consequências, mas não conseguia explicá-lo nem era, portanto, capaz de o dominar; sabia apenas que era mau e condenava-o. Quanto mais violentamente clamava contra a exploração da classe operária, inseparável desse modo de produção, menos estava em condições de indicar claramente em que consistia e como nascia essa exploração. Mas do que se tratava era, por um lado, de apresentar o modo capitalista de produção no seu contexto histórico e a sua necessidade para uma determinada época da história, demonstrando com isso também a necessidade da sua queda e, por outro lado, pôr a nu o seu caráter interno, ainda oculto. Foi isso que aconteceu com a descoberta da mais-valia. Ficou provado que a apropriação do trabalho que não é pago constitui a forma básica do modo de produção capitalista e da exploração do operário nela levada a cabo; que o capitalista, mesmo quando compra a força de trabalho do seu operário pelo pleno valor que ela tem o mercado como mercadoria, obtém dela um valor sempre maior do que o que pagou por ela; e que esta mais-valia forma, em última instância, a soma de valor de onde sai a massa sempre crescente de capital que se acumula nas mãos das classes possuidoras. O processo da produção capitalista e o da produção de capital estavam assim explicados.





Estas duas grandes descobertas - a conceção materialista da história e a revelação do segredo da produção capitalista através da mais-valia – ficamos a devê-las a Karl Marx. Graças a elas o socialismo tornou-se uma ciência, e agora a questão imediata é aperfeiçoá-la em todos os seus pormenores e conexões.





Fonte: Dos Clássicos: Engels sobre o Nascimento do Socialismo Científico - MLToday

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Edição de TAM

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