segunda-feira, 13 de julho de 2026

A classe operária e a libertação nacional – lições da experiência venezuelana

Adrien Welsh


Sem a liderança comunista, a luta pela libertação nacional só pode ser capitalista. Na Venezuela, levou apenas vinte anos para que a burguesia monopolista nascente tentasse impor a sua autoridade e livrar-se dos seus antigos aliados, muitas vezes de forma brutal. Os seus esforços para se integrar no capitalismo globalizado incluem a liquidação dos ganhos sociais do processo bolivariano.





Quando Hugo Chávez chegou ao poder na Venezuela em 1999, destruiu a consigna triunfante do imperialismo de que a história tinha acabado. Cuba já não estava sozinha na sub-região – outros movimentos anti-imperialistas, que até então tinham limitado as suas ações à esfera económica, compreendiam agora a importância de tomar o poder político. Foi o caso de Evo Morales na Bolívia e depois Rafael Correa no Equador, seguido por El Salvador, o regresso dos sandinistas na Nicarágua, Pepe Mujica no Uruguai, etc.





Evidentemente, o imperialismo americano compreendeu que estava a perder o controlo do seu proclamado quintal, e então instigou o golpe de Estado de 2002 para depor Chávez e restaurar um governo burguês subserviente. Mas a classe trabalhadora venezuelana, o povo, a classe operária e os trabalhadores rejeitaram o golpe, mobilizando-se para colocar o seu presidente legítimo de volta ao poder. Assim, o imperialismo tentou outras manobras sujas, sendo as mais recentes a tentativa de golpe de Juan Guaidó (que o Canadá ainda reconhece apesar da sua completa falta de credibilidade) e ataques militares desesperados liderados por mercenários contra o governo de Maduro.





O povo venezuelano manteve a sua posição, mas pagou um preço alto pelas sanções que lhe foram impostas. Reagiram porque sabiam que, se a direita continental regressasse ao poder, isso significaria o fim dos padrões laborais progressistas (a Lei Orgânica do Trabalho e dos Trabalhadores de 2012), dos programas sociais, dos projetos de infraestruturas, das empresas nacionalizadas e de todos os esforços para melhorar o desenvolvimento económico e redistribuir a riqueza.





Mas, em vez de tentar sair dessa crise aprofundando o processo bolivariano para que se tornasse uma verdadeira revolução socialista, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) governou como qualquer partido social-democrata. Apressou-se a dar garantias ao imperialismo, reconhecendo que, se não quisesse lutar pelo socialismo – numa situação económica catastrófica – teria de dividir o poder e permitir que a oposição fascista recuperasse o seu lugar económico.





Como resultado, as corporações mineradoras que tinham sido nacionalizadas, umas, expulsas outras, durante o governo de Chávez, têm novamente direito ao tratamento de tapete vermelho, enquanto cooperativas e empresas agrícolas nacionalizadas veem o controlo transferido para o capital privado. A Lei Orgânica do Trabalho é muitas vezes ignorada e desrespeitada. A nível político, o governo negocia com a "oposição" pró-imperialista.





Neste contexto, o Partido Comunista da Venezuela (PCV) reconhece que a prioridade do governo já não é defender a soberania do país, mas sim comprometer-se com o imperialismo. Como resultado, em 2020 o PCV formou a Aliança Patriótica Revolucionária (APR) com outros partidos políticos que apoiavam o processo bolivariano.





Em resposta, o governo está a tentar fomentar divisões entre os partidos da APR. O PCV está na linha de fogo direta, mas conseguiu resistir ao ataque com a sua estrutura centralista democrática e a força ideológica dos seus membros e liderança. O apoio internacional ao PCV é alto, pois frequentemente é uma das poucas vozes que luta de forma consistente e contínua pela defesa da soberania da Venezuela.





Para o PSUV, a única opção restante é a ilegalização do PCV atual e a sua substituição por um falso partido "paralelo".





O Partido Comunista da Venezuela foi o primeiro partido político a compreender a importância histórica de Chávez e a apoiá-lo. Mas a sua proposta, feita após as eleições de 2006, de uma frente anti-imperialista unida, foi na verdade um esforço para formar um único partido (o PSUV) no qual outros partidos se dissolveriam. A recusa do PCV em fazê-lo (dissolver-se) levou à formação do Grande Polo Patriótico, que reuniu todas as forças progressistas, antimonopolistas e anti-imperialistas. Mas, ao contrário da Unidade Popular do Chile, cujos componentes políticos e sociais se reuniam periodicamente para estabelecer um programa político comum, o "polo" bolivariano não teve um propósito real além de renovar uma aliança estritamente eleitoral.





O PCV estava fortemente comprometido em preservar a sua parceria e solidariedade com o governo. Em 2018, assinou um acordo com o PSUV, escolhendo Nicolás Maduro como candidato único nas eleições presidenciais. Mas, uma vez eleito Maduro, o PSUV não convocou uma reunião de acompanhamento nem implementou os programas acordados. Na verdade, muito pelo contrário.





Que lições podem ser aprendidas com esta experiência?





As duas grandes contradições do capitalismo contemporâneo são entre capital e trabalho, e entre imperialismo e soberania. A primeira é a contradição fundamental e a segunda pode, em certos casos como a Venezuela, ser a principal contradição. Mas elas evoluem em paralelo. Isso significa que não podemos, em nome da defesa da soberania nacional, exigir sacrifícios à classe trabalhadora e permitir que a burguesia nacional se estabeleça como uma burguesia monopolista.





Uma frente unida anti-imperialista é importante, mas o Partido Comunista (como destacamento de vanguarda da classe operária) ainda deve ser capaz de se organizar de forma independente. Sem essa condição, a frente é anti-imperialista apenas no nome e acaba por se tornar uma ferramenta para a burguesia nacional.





Sem a liderança comunista, a luta pela libertação nacional só pode ser capitalista. Na Venezuela, levou apenas vinte anos para que a burguesia monopolista nascente tentasse impor a sua autoridade e livrar-se dos seus antigos aliados, muitas vezes de forma brutal. Os seus esforços para se integrar no capitalismo globalizado incluem a liquidação dos ganhos sociais do processo bolivariano.





Estas três lições não devem ser aprendidas apenas com a experiência venezuelana. Vimos o mesmo na África do Sul, onde os governos do ANC não hesitaram em trair a Carta da Liberdade de 1955. Também vimos isso com o MPLA em Angola, a FRELIMO em Moçambique, Sékou Touré na Guiné, Nasser no Egito e com a Argélia independente.





Nesses e em muitos outros casos, a lição é clara: não há libertação nacional sem a libertação da classe trabalhadora.







Fonte: The Working Class and National Liberation - Lessons from Venezuela's Experience - MLToday , publicado em 06.03.2023 e acedido em 20.06.2026

Foto: https://i.snap.as/Cp6Hlmqe.jpg



Tradução de TAM

sexta-feira, 10 de julho de 2026

A aritmética de um mundo em chamas

María Julia Mayoral





Gastos militares em novos picos. Falta persistente de financiamento para um desenvolvimento sustentável. Um relatório global confirma níveis "alarmantemente altos" de insegurança alimentar e desnutrição.








Os gastos militares aumentaram pelo décimo primeiro ano consecutivo. Investimentos vitais para a humanidade carecem de financiamento oportuno e suficiente; no entanto, os gastos militares globais atingiram quase US$ 2,9 biliões em 2025 e podem continuar a crescer. A 4ª Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento reconheceu no ano passado que "o progresso rumo à realização do desenvolvimento sustentável nas suas dimensões económicas, sociais e ambientais está seriamente atrasado", apesar dos compromissos da Agenda 2030, adotada em 2015. Sob os auspícios das Nações Unidas (ONU), o fórum alertou que a diferença entre as aspirações e o financiamento para as alcançar continua a aumentar, com o défice agora estimado em quatro biliões de dólares anuais.



Por outras palavras, não há dinheiro suficiente disponível para fornecer comida, cuidados médicos, água, saneamento, educação, eletricidade e habitação digna a milhões de pessoas, ou para quebrar o ciclo da pobreza estrutural, ou mitigar as mudanças climáticas. No entanto, os gastos militares aumentaram pelo décimo primeiro ano consecutivo, atingindo US$ 2,887 biliões, equivalente a 2,5% do PIB global em 2025, segundo um relatório divulgado em abril passado pelo Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI).


Apesar de uma leve queda, os Estados Unidos permaneceram na liderança, com 954 mil milhões de dólares, representando cerca de um terço do total global. China (336 mil milhões de dólares) e Rússia (190 mil milhões de dólares) ocupavam as posições seguintes, de acordo com o SIPRI. No total, os gastos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) — a maior aliança militar do mundo — atingiram US$ 1.581 biliões, representando 55% do total.



Perante as guerras em curso, disputas comerciais, incerteza geopolítica e planos de investimento militar de longo prazo, "essa tendência de alta quase certamente continuará em 2026 e para além desse ano", disse Xiao Liang, investigador do SIPRI.



"Não se trata apenas de armas e guerras; "É algo que terá efeitos profundos em todas as sociedades", observou o analista, considerando a possibilidade de novos cortes nos serviços sociais e na cooperação internacional na assistência oficial ao desenvolvimento. Avaliações da ONU confirmam que a queda na assistência oficial ao desenvolvimento e o aumento do custo dos empréstimos — devido às taxas de juros exorbitantes — prejudicam especialmente países de baixos e médios rendimentos.



Atualmente, 54 países — lar de 3,4 mil milhões de pessoas — estão a destinar mais recursos ao serviço da dívida do que à saúde ou educação, segundo cálculos da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).



"Essas pressões restringiram o investimento público, limitando a capacidade dos países de financiarem o crescimento, fortalecer a resiliência e alcançar o desenvolvimento sustentável", observou a UNCTAD.



Nesse sentido, o Relatório Mundial sobre Crises Alimentares 2026 alertou que "os níveis de insegurança alimentar aguda e desnutrição continuam alarmantemente altos e profundamente enraizados". Na sua décima edição, o estudo mostrou que a fome aguda dobrou na última década, segundo os autores do documento, membros de uma rede global composta por instituições da ONU, União Europeia e outros parceiros.



Segundo o estudo, "o conflito continua a ser a principal causa da insegurança alimentar aguda e da desnutrição sofridas por milhões de pessoas em todo o mundo", afirmou o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, no prefácio. As perspetivas para o futuro imediato também são sombrias. "Conflitos em curso, variabilidade climática e incerteza económica global — incluindo riscos para os mercados de alimentos — provavelmente manterão ou piorarão as condições em muitos países", previu o relatório.



Outro desenvolvimento preocupante, acrescentou, "é o declínio drástico no financiamento humanitário e de desenvolvimento para crises alimentares. O financiamento para a resposta a crises alimentares, assim como para a segurança alimentar e nutrição, caiu para níveis não vistos há quase uma década", enfatizou o relatório.



Então, como podemos entender que quase 2,9 biliões de dólares sejam desperdiçados em gastos militares num único ano? Com apenas uma fração dessa enorme fortuna, poderiam ser feitos investimentos significativos para melhorar o bem-estar humano na Terra.



A matemática é simples, e os problemas do mundo não serão resolvidos pela tolice da guerra.








Fonte: The Arithmetic of a world in flames › World › Granma - Official voice of the PCC, publicado em 11.05.2026, acedido em 22.06.2026
Foto: https://araguaianoticia.com.br/images/noticias/74883/18020521_WhatsApp_I.jpeg 



Tradução de TAM

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A China e as operações de paz

Carlos Branco, Major-General


 

De um papel marginal, Pequim passou a ser o principal contribuinte para as operações de paz da ONU, combinando a presença militar com o apoio financeiro e logístico. Ao contrário dos EUA, que se limitam a financiar as operações da Organização, a China financia-as e contribui com tropas e polícias. Esta diferente abordagem reflete doutrinas e objetivos estratégicos que não podem ser dissociados das iniciativas políticas de Pequim para consolidar o seu estatuto de grande potência[...]




Apesar das operações de paz da ONU terem diminuído em cerca de 40% na última década, vítimas das fortes tensões entre as grandes potências, e terem de viver com orçamentos cada vez mais reduzidos, em grande parte responsabilidade da Administração Donald Trump, a China continua a dedicar-lhes uma grande atenção mantendo a política iniciada nos anos 1990, cujos fundamentos políticos e estratégicos importa perceber.

De um papel marginal, Pequim passou a ser o principal contribuinte para as operações de paz da ONU, combinando a presença militar com o apoio financeiro e logístico. Ao contrário dos EUA, que se limitam a financiar as operações da Organização, a China financia-as e contribui com tropas e polícias. Esta diferente abordagem reflete doutrinas e objetivos estratégicos que não podem ser dissociados das iniciativas políticas de Pequim para consolidar o seu estatuto de grande potência, projetar uma imagem de “responsabilidade internacional” e promover os seus interesses estratégicos, no quadro multilateral, matéria relativamente à qual os EUA têm mostrado ceticismo e afastamento.

A política externa chinesa combina o multilateralismo com a ação bilateral, especialmente em África, onde se concentra uma parte significativa dos seus interesses económicos e de segurança. A cooperação multilateral no quadro da ONU através das operações de paz proporciona e potencia a cooperação bilateral fora do quadro da Organização, em que Pequim também participa, mas de forma diferente, focando-se principalmente no apoio financeiro, diplomático e na capacitação de forças, mas não com tropas. Vão longe os tempos em que a política externa chinesa se resumia a apoiar os movimentos de libertação nacional em África.

No quadro da ONU

A participação chinesa em operações de paz teve início em 1990, quando Pequim enviou observadores militares para a UNTSO (Israel). Em 1992, essa participação aumentou com o envio de uma unidade de engenharia militar, com cerca de 400 militares, para a UNTAC (Camboja). Desde então, a China tem vindo a expandir a sua contribuição, passando de contingentes de 100 militares, em 2000, para mais de 1 600 capacetes azuis, em 2026 (MNE da RPC, março), destacados em oito missões (Líbano, Sudão do Sul, Abiei (região rica em petróleo de 10 546 km² na fronteira entre o Sudão e o Sudão do Sul) e República Democrática do Congo), além de um pequeno número de oficiais de estado-maior em funções no quartel-general da ONU, em Nova Iorque, e observadores militares contribuindo para estas operações com mais tropas do que os restantes membros permanentes do Conselho de Segurança juntos.

A China mantém ainda em permanente estado de prontidão uma força para operações de paz com oito mil efetivos, composta por 28 unidades profissionais de 10 tipos, incluindo infantaria, equipas médicas, unidades de reação rápida, helicópteros e engenheiros, prontas para serem rapidamente enviadas para zonas de operações de paz, no estrangeiro.

No total, mais de 50 mil capacetes azuis chineses já participaram em 29 operações de paz da ONU. A China encontra-se no 8.º lugar (30ABR2026) entre os países contribuintes com tropas (e pessoal uniformizado) para as operações de paz da ONU, e é o seu segundo maior financiador. Em 2026, Os EUA contribuíram com cerca de duas dúzias de pessoas, ficando fora do top 80 dos países contribuintes com forças.

Tradicionalmente, os países em desenvolvimento fornecem a maioria das boots on the ground [botas no terreno, i.é, soldados], enquanto os países desenvolvidos preferem pagar os custos das operações. A China faz as duas coisas, aumentando o seu soft power combinando envio de tropas com financiamento.


No ciclo 2024–2025, Pequim contribuiu com 18,7% (cerca de $1,04 mil milhões) do orçamento da ONU dedicado às operações de paz, apenas atrás dos EUA, com cerca de 27%, longe dos 6-10%, do ciclo 2016-2018. No ciclo 2025–2026, essa contribuição dilatou para 23,7% (cerca de 1,5 mil milhões), sendo em ambos os ciclos a segunda maior contribuição. Pequim tem honrado integralmente as suas contribuições para as operações de paz, sem dívidas de longo prazo pendentes, o que contrasta com os EUA que têm uma contribuição mais elevada, mas mantêm uma dívida de cerca de 2,4 mil milhões de dólares há vários anos.

Pequim tem participado nestas operações com unidades de infantaria, engenharia, desminagem, equipas médicas, unidades de helicópteros, unidades de reação rápida, observadores militares e oficiais de estado-maior, principalmente em África, onde nalguns períodos chegou a concentrar mais de 80% dos seus capacetes azuis: na UNMISS (Sudão do Sul) com um batalhão de infantaria (cerca de mil soldados); na MONUSCO (República Democrática do Congo), na MINUSMA (Mali), e no Darfur (Sudão), entre outras. Além da segurança, as tropas chinesas têm estado envolvidas na criação de infraestruturas, na assistência médica, no apoio humanitário e na ajuda ao desenvolvimento local. 

Fora do quadro da ONU

Pequim tem evitado participar em operações de paz fora do quadro da ONU, mas quando o faz a sua ação centra-se no treino e na capacitação de forças africanas focando-se principalmente em missões de estabilização alinhadas com os seus interesses económicos em África e com a sua iniciativa “Uma Faixa uma Rota”; usando essas operações de paz para ganhar legitimidade internacional e influência no Sul Global.

Pequim tem desenvolvido uma cooperação significativa e multifacetada com a União Africana (UA) e com as organizações africanas sub-regionais, especialmente desde o início dos anos 2000, com ênfase no apoio institucional, económico, infraestrutural e, em menor grau, de segurança. Por exemplo, apoiou financeiramente a missão da UA, no Darfur, a missão na Somália e apoiou a designada Arquitetura Africana de Paz e Segurança (APSA), envolvendo-se no treino e na capacitação de forças de paz africanas, assim como no seu apoio logístico/equipamento, atividades alinhadas com a iniciativa “Cooperação China-África em Segurança”.

Para a UA, a China é um parceiro chave que preenche lacunas de financiamento e de infraestruturas, alinhada com a visão de uma “África integrada, próspera e pacífica”. Pequim financiou integralmente (com cerca de $200 milhões) a construção da sede da UA, em Adis Abeba (2012), abriu uma missão permanente junto da UA (2005) e esta reciprocou com uma missão permanente na China, mantendo assim um diálogo estratégico constante. Para a China, a UA serve como multiplicador de influência continental, complementando as abordagens bilaterais.

Pequim alinhou explicitamente os seus projetos com os objetivos da “Agenda 2063” e com o “Programa para o Desenvolvimento de Infraestruturas em África” (PIDA – transportes, energia, tecnologias da informação e comunicação e água transfronteiriça) da UA. Muitos planos de ação do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), uma plataforma de cooperação crucial nas relações entre a China e os países africanos, como o de 2025-2027, enfatizam esta sinergia. A China é o maior parceiro comercial e investidor de África. Esta cooperação alarga-se a bolsas de estudo, centros de pesquisa conjuntos, cooperação em ciência e tecnologia. Em janeiro de 2026, teve lugar o 9.º Diálogo Estratégico China-UA, em Adis Abeba, reforçado através do FOCAC.

Ainda no âmbito da paz e segurança foi lançada, em 2012, a Iniciativa “China-África Parceria para a Paz e Segurança”, um  quadro de cooperação lançado pela China com os países africanos e a UA para fortalecer a colaboração nos domínios da paz, segurança, estabilização e prevenção de conflitos, a qual inclui quatro componentes principais: o “Fundo China-África para Paz e Segurança”, que financia operações de manutenção da paz, formação e apoio a operações; o “Fórum China-África de Paz e Segurança”, que envolve a participação de ministros da defesa, militares e especialistas para discutir assuntos de segurança; o apoio à APSA, que inclui o apoio à força africana de resposta rápida, às operações de paz da UA e às designadas soluções “africanas para problemas africanos”; e a “Assistência militar e formação” com o treino de militares e polícias africanos, doação de equipamentos, realização de exercícios conjuntos e apoio logístico.

Enquanto os EUA, céticos em relação à eficácia de algumas operações de paz da ONU, têm preferido intervenções multilaterais ad hoc ou bilaterais, como no Afeganistão ou no Iraque, a atuação da China fora do quadro da ONU, como no caso da UA, tem sido predominantemente de apoio material e alinhamento estratégico, concentrada no desenvolvimento, com uma presença crescente nos domínios da governação e da segurança, reforçando as suas posições no Sul Global e alimentando uma relação que tem vindo a evoluir para uma coordenação institucional cada vez mais intensa.

O entendimento dos fundamentos estratégicos da importância atribuída por Pequim às operações de paz, na sua maioria em África, insere-se numa ação política de maior envergadura e abrangência, inserida na “Parceria Estratégica e Cooperativa Abrangente” (Joanesburgo, 2015), que marcou uma nova fase na interação com África: maior coordenação política, apoio mútuo em fóruns internacionais, criar sinergias entre a “Agenda 2063” africana e as iniciativas chinesas (como a “uma faixa, uma rota”), e a cooperação em paz e segurança. 

Esse envolvimento reflete um pensamento radicalmente diferente do norte-americano. A China e os EUA têm desempenhado papéis muito distintos no que respeita às operações de paz, tanto no quadro como fora do quadro da ONU. O projeto chinês aposta numa parceria estratégica com África assumindo um compromisso com o multilateralismo africano e a integração continental. As operações de paz, independentemente do quadro em que se realizem, são utilizadas por Pequim para abrir as portas para uma cooperação mais intensa e abrangente em múltiplos domínios, servindo a segurança apenas como o catalisador específico dessas relações.

NE: Os editores consideram que todo o processo aqui descrito dá uma ampla panorâmica dos desenvolvimentos económicos, políticos e militares da China como grande potência imperialista – a maior dentro de pouco tempo. Tal processo interessa ao capital e à burguesia chineses e não perspetiva, por si só, um mundo  pacífico ou o fim da exploração capitalista.

publicado e acedido em 30.06.2026 

Venezuela: não lhe chamem traição

16.10.2026 Rafaelle Timperi O balanço que precisamos de fazer não é sobre Caracas, mas sobre aqueles que aqui continuam a afirmar que deve s...