Ivan Pinheiro, dirigente histórico do PCB, atualmente independente
Nesta segunda volta - em que pesam as críticas que a esquerda mais combativa faz corretamente aos governos petistas [do PT, Partido dos Trabalhadores]- não podemos lavar as mãos, colocando no mesmo patamar a conciliação de classes favorável às classes dominantes do lulismo e o bolsonarismo, marcado pela submissão sem limites ao imperialismo estadunidense, o banditismo, a corrupção [...]

CARTA ABERTA AOS PARTIDOS E MILITANTES PELO SOCIALISMO:
Camaradas,
Assino a presente declaração de voto de forma pessoal, como um militante comunista atualmente independente e instigado pela minha consciência e responsabilidade.
Não poderia calar-me, num momento em que uma eleição no nosso país - mais polarizada que as anteriores e mais preocupante do ponto de vista das suas consequências - terá impactos importantes, inclusive na conjuntura latino-americana e mundial. Nesta segunda volta, não podemos lavar as mãos nem comportar-nos de forma sectária e dogmática, resvalando para o esquerdismo, bem definido por Lenine como “a doença infantil do comunismo”.
Para os revolucionários, as eleições na democracia burguesa não são uma questão de princípio, uma fórmula teórica imutável e universal. Em cada momento a nossa posição deve ser analisada levando em conta a conjuntura mundial e nacional, os interesses do proletariado e as condições para que nossas lutas tenham mais possibilidades de evoluir na combatividade, organização e influência na classe trabalhadora.
No cenário internacional, estamos nas vésperas de uma provável guerra de proporções mundiais e consequências inimagináveis, em face da iminência de o imperialismo estadunidense perder a sua hegemonia política, económica e militar para a China, cujo “socialismo de mercado” - que exporta capitais e não o internacionalismo proletário - evolui a passos largos para se tornar em breve a nova potência hegemónica, uma realidade concreta que anima e ilude pacifistas, socialdemocratas e até alguns comunistas pelo mundo fora, idealizando que, sob o domínio da China, as relações entre os países e as suas respetivas burguesias passarão a ser pacíficas e multilaterais, negando a análise leninista sobre o imperialismo como a etapa superior do capitalismo, conforme comprovaram todas as inevitáveis guerras mundiais no passado. Enquanto houver capitalismo, a potência hegemónica recorrerá às guerras para manter a sua posição. Quem viver verá que a China não subestimou essa lição!
Projetando o futuro próximo, a corrida armamentista encontra-se no auge e com tecnologias absurdamente mais devastadoras do que aquelas que levaram à chamada “convivência pacífica” entre a União Soviética e os Estados Unidos, após a Segunda Guerra Mundial. Os ensaios já começaram há alguns anos, na guerra interimperialista na Ucrânia, iniciada alguns dias depois da assinatura do inédito “Acordo sem Limites” entre a China e a Rússia, e escalaram há cerca de oito meses, depois do cobarde ataque de surpresa da parceria EUA/Israel contra o Irão, conflito que vem se arrastando e revelando que o imperialismo estadunidense está em vésperas de perder a sua hegemonia também no âmbito militar.
Este cenário, em que o Brasil tem algum peso, não pode ser ignorado sobretudo entre os comunistas, que têm o internacionalismo como princípio fundamental. São proletários os que se matam nas guerras entre as suas burguesias!
É evidente que, para mitigar o seu declínio, os EUA precisam priorizar o domínio de todo o continente americano, como já vêm fazendo nos últimos meses, como vimos na operação militar relâmpago na Venezuela – facilitada pela traição de dirigentes autoproclamados socialistas e bolivarianos – quando sequestrou o seu presidente e assumiu de facto o governo do país, expropriando suas imensas reservas de petróleo, assim como na radicalização do longevo bloqueio económico e militar a Cuba, na manipulação em recentes eleições na América Latina, na criação do “Escudo das Américas” (a pretexto da luta contra o narcotráfico), nos “tarifaços” contra o Brasil, o Canadá e o México, nas suas novas instalações militares em diversos países da América do Sul já dominados e na ofensiva para incorporar o território estratégico da Gronelândia.
A família Bolsonaro, testa de ferro da burguesia mais entreguista e reacionária no nosso país, continua como sempre ao serviço dos EUA, apoiando os seus golpes e guerras imperialistas, o genocídio do povo palestiniano e sanções económicas contra o nosso país. O candidato bolsonarista chegou ao ponto de prometer publicamente a Trump que, se eleito, compartilhará a sua equipe de transição com quadros indicados por ele, transformando na prática Marco Rúbio como seu Primeiro Ministro de facto.
Nesta segunda volta - em que pesam as críticas que a esquerda mais combativa faz corretamente aos governos petistas [do PT, Partido dos Trabalhadores]- não podemos lavar as mãos, colocando no mesmo patamar a conciliação de classes favorável às classes dominantes do lulismo e o bolsonarismo, marcado pela submissão sem limites ao imperialismo estadunidense, o banditismo, a corrupção como objetivo principal do exercício do poder e a subordinação aos interesses das classes dominantes que, em face da crise sistémica do capitalismo, precisam de um governo ao seu serviço, para retirar mais direitos aos trabalhadores, manter a jornada 6 por 1, rebaixar o salário mínimo, acabar com programas sociais e políticas compensatórias, reprimir as lutas populares e restringir as proclamadas liberdades democráticas.
Para cumprir esses compromissos, um eventual governo bolsonarista, somado aos seus aliados da direita, tende a ter maioria na Câmara dos Deputados e sobretudo no Senado, onde duplicou a sua bancada, contando agora com mais de um terço dos seus membros, na casa legislativa que tem a prerrogativa de decretar impeachment de Ministros do STF [Supremo Tribunal Federal] e durante um mandato presidencial que teria direito a indicar 5 Ministros do STF, para se somarem a André Mendonça e Nunes Marques!
Confesso que não será com orgulho nem alegria, mas por convicção política, que apertarei o número 13 na segunda volta. Não é por antipatia nem problema pessoal com o candidato. Convivi com Lula no ambiente sindical e tenho muito respeito por ele como pessoa. Fomos parceiros na realização da importante 1ª CONCLAT [Conferência Nacional da Classe Trabalhadora], em 1981, que potencializou a maior explosão da história do sindicalismo brasileiro. Os nossos diálogos naquela época sempre foram construtivos, na busca da unidade de ação. Mas Lula nunca foi socialista e, em rigor, nem mesmo “de esquerda”. A sua busca messiânica por uma sonhada justiça social no capitalismo, baseada na impossível conciliação equilibrada dos interesses de classe, tem a ver apenas com as suas ilusões humanistas. Sinceramente, não acredito que ele seja corrupto, embora faça vistas grossas a falcatruas de aliados para assegurar a sua base de apoio. A ambição que o alimenta é a de legar uma herança política como um estadista democrata, justo e pacifista.
Com a sua liderança incontestada, além de outros fatores, foi o principal responsável pela transformação do PT e da CUT [Central Única dos Trabalhadores] em bombeiros da luta de classe, o que levou os seus governos a contribuir para a decadência do movimento sindical e operário.
Como equilibrista em cima do muro, Lula é capaz de seguir à risca o receituário económico do capital e, ao mesmo tempo, criar programas sociais compensatórios para mitigar a miséria da maioria da população. É capaz de defender verbalmente a soberania nacional, mas apenas a do país que governa, para assegurar a sua política externa baseada no “pragmatismo responsável” nas relações diplomáticas e comerciais. Vetou a entrada da Venezuela no BRICS, isolando-a, e calou-se diante do ataque militar de que o país foi vítima, em 3 de janeiro deste ano. Jamais se solidarizou com o povo cubano e a sua soberania, nem em palavras nem com um barril de petróleo, mesmo neste momento em que o bloqueio dos EUA provoca escassez de produtos essenciais. Quando denuncia corretamente na ONU o genocídio sionista ao povo palestino, procura relativizá-lo, chamando ao Hamas “grupo terrorista”, como se um povo agredido não pudesse armar-se contra o agressor, um direito consolidado há décadas pela própria ONU, cada vez mais incapaz de cumprir o papel para o qual foi criada.
Sua conciliação amplamente vantajosa para as classes dominantes é favorecida pelo silêncio do setor hegemónico reformista que se declara de esquerda - voltado apenas para a conquista de mandatos eletivos e a atuação na institucionalidade burguesa - a pretexto de não contribuir para desestabilizar o seu governo.
Nesta conjuntura, é incompreensível que partidos, coletivos e militantes que se declaram revolucionários defendam o voto nulo nesta segunda volta, como se o currículo e os objetivos dos dois candidatos fossem iguais! Esta eleição é muito mais complexa e perigosa que as anteriores, em função do agravamento das contradições interimperialistas, da corrida armamentista, da disputa pelas chamadas terras raras e minerais críticos, do advento da inteligência artificial, que destruirá empregos, manipulará as massas e tornará as guerras mais destruidoras, além de outros fatores.
Além de tudo, estamos sob o risco de novas tentativas de golpe, a pretexto da crise moral e da luta interna no STF e da suspensão do debate na Globo, e até mesmo de intervenção militar dos EUA, que só poderia ser detida com o levantamento do povo brasileiro, já que não podemos confiar no comando das nossas forças armadas, cujo Ministro da Defesa, perguntado recentemente sobre o que fazer diante de uma invasão militar estadunidense, não titubeou ao declarar que a única alternativa possível seria “abrir as nossas portas”. O estranho encerramento da embaixada e consulados dos EUA, nas vésperas da primeira volta e a recente criação do ameaçador “Escudo das Américas”, ao qual aderiram países sul-americanos fronteiriços ao nosso, são outros sinais preocupantes que devemos levar em conta.
As organizações da esquerda brasileira que se proclamam revolucionárias precisam de abandonar a arrogância e o espírito de seita, que impedem a sua unidade na ação e, em consequência, o avanço do movimento de massas.
Está na hora de somarmos esforços para enfrentar esta conjuntura dramática e
estarmos à altura das complexas lutas que teremos pela frente. Cabe aos partidos deste campo político que apresentaram candidaturas próprias na primeira volta dialogarem o mais breve possível para analisar a necessidade da realização de um encontro com outros partidos e coletivos voltados também para a luta pelo socialismo, no qual, respeitando suas divergências táticas e estratégicas e suas tradições, construam um programa consensual que os permita atuarem em unidade de ação para enfrentarmos os grandes desafios que se anunciam, seja qual for o resultado eleitoral.
Votarei em 25 de outubro contra a entrega do destino do nosso país e do nosso povo nas mãos do imperialismo estadunidense e contra o fascismo, uma arma à qual o capitalismo recorre para reprimir as lutas do proletariado, com o objetivo de impulsionar a mais-valia.
No dia seguinte, a despeito das minhas limitações pessoais, estarei como sempre à disposição para me somar a iniciativas no campo da luta revolucionária pelo socialismo no nosso país e por um mundo sem classes, guerras e fronteiras!
Ivan Pinheiro
Rio de Janeiro, 5 de outubro de 2026
Fonte: Via WhatsApp, 06.10.2026
Foto: https://acomunarevista.org/wp-content/uploads/2025/03/9ba05ac3-7701-4e30-8956-0c578ce59b04.jpeg
Edição ligeira para a variante do português de Portugal
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