21.08.2026
Miguel
Alabarta
Essa normalização das relações, juntamente com um novo acordo para o aumento das importações de gás argelino, constitui a principal variável para explicar a ação do governo marroquino. No cenário internacional, Argélia e Marrocos constituem os dois lados de uma balança em que o equilíbrio parece impossível.
A entrada de milhares de
marroquinos em Ceuta não foi um episódio isolado de migração. O artigo analisa
como os fluxos humanos se tornaram instrumentos de pressão geopolítica em
disputas que envolvem Espanha, Marrocos, Argélia, Israel e o Saara Ocidental.
O controle dos
fluxos migratórios como instrumento de política externa não é um fenómeno novo.
No último século, muitos Estados utilizaram as suas populações (e as de outros
países) para cumprir objetivos de política externa. Foi o que ocorreu com o
êxodo de Mariel, de Cuba para a Flórida, em 1980; a crise dos balseros, em 1994; ou a chegada de milhares de marroquinos
a Ceuta, em 2021, após a hospitalização do líder
da Frente Polisário em Espanha e o aumento das importações de gás argelino.
No entanto, o
controle da emigração constitui apenas uma das múltiplas formas pelas quais os
Estados utilizaram a mobilidade humana para fins de pressão política.
Essa
instrumentalização adotou estratégias muito diversas: desde o assentamento de
colonos para consolidar o controle sobre um território — como os colonatos
israelitas nos territórios palestinianos ocupados ou a Marcha Verde e o
posterior colonato de civis marroquinos no Saara Ocidental — até à expulsão ou
proibição da entrada de pessoas consideradas espias ou inimigas do regime em
contextos de conflito, a concessão seletiva do estatuto de refugiado em função
de interesses políticos ou o controle dos fluxos migratórios de trânsito para
obter concessões diplomáticas ou económicas — por exemplo, o acordo da União
Europeia com a Turquia, em 2016, ou a Líbia de Muammar Kadafi diante das
sanções europeias.
Mas então, como
explicar a entrada coordenada de cerca de 50 mil marroquinos em Ceuta, uma
cidade com pouco mais de 80 mil habitantes, em questão de horas?
Em primeiro
lugar, interpretar a crise de Ceuta como o simples deslocamento de milhares de
pessoas em busca de uma vida melhor é uma leitura tão paternalista quanto
insuficiente.
Além da crise de Ceuta: Aliado do ocidente, Marrocos usa chantagem, repressão e ocupação para impor poder na África
Da mesma forma,
reduzir a ideia da migração instrumentalizada à influência de Donald Trump
sobre Marrocos significa ignorar a capacidade de ação do Estado marroquino.
As pessoas que
cruzaram a fronteira são, de facto, migrantes económicos, mas a forma e o
momento em que o fizeram não foram espontâneos. Os Estados, mesmo num contexto
de globalização, são, antes de tudo, soberanos.
No cenário
internacional, Argélia e Marrocos constituem os dois lados de uma balança em
que o equilíbrio parece impossível.
Assim como na
crise migratória de 2021, a recente entrada de milhares de pessoas provenientes
de Marrocos em território de Ceuta coincide com a visita do presidente Pedro
Sánchez à Argélia, no último dia 20 de julho, para descongelar definitivamente
as relações diplomáticas entre os dois países, paralisadas desde a declaração
de apoio do governo espanhol à ocupação marroquina do Saara Ocidental.
Essa normalização
das relações, juntamente com um novo acordo para o aumento das importações de
gás argelino, constitui a principal variável para explicar a ação do governo
marroquino. No cenário internacional, Argélia e Marrocos constituem os dois
lados de uma balança em que o equilíbrio parece impossível.
Ao mesmo tempo, a
Comissão de Justiça do Congresso aprovou, em 23 de julho, a proposta de lei que
concederia ao povo saaraui a nacionalidade espanhola aos nascidos na antiga
colónia espanhola antes de 29 de setembro de 1977 e aos seus descendentes,
apesar das emendas apresentadas pelo Partido Socialista Operário Espanhol
(PSOE).
Neste contexto, a
decisão do Supremo Tribunal, de 29 de junho (STS 2965/2026), que estabeleceu
que o ordenamento jurídico espanhol não ampara as chamadas “devoluções
imediatas” de migrantes que chegam a Ceuta e Melilla, configurou um cenário
especialmente favorável para que Marrocos respondesse à normalização das
relações entre Espanha e Argélia.
Outra variável a
ser considerada, agora sim, é a relação de Marrocos com os Estados Unidos e com
Israel. Apesar de o genocídio palestiniano implicar o extermínio de uma
população maioritariamente árabe, o governo marroquino demonstrou apoio aos
planos do governo israelita — através dos Acordos de Abraão, de 2020 — e
reforçou as suas relações com os Estados Unidos, que o reconhecem como
parceiro, enquanto apoiam o controle marroquino sobre o território saaraui e a
sua expansão em direção a Ceuta e Melilla na construção do Grande Marrocos.
A resposta dos
governos europeus, sobretudo da Itália e da França, leva a pensar que essa
migração dirigida pode ser um aviso à Europa: podemos atacar as vossas
fronteiras sem sequer as pisar; podemos afetar os vossos governos sem sequer
intervir neles. Ao mesmo tempo, favorece a narrativa da extrema-direita mundial
sobre a crise de segurança ligada à imigração; uma extrema-direita que, com
exceção de posições mais moderadas, como a de Giorgia Meloni, na Itália, apoia
sem reservas o projeto sionista israelita e a deriva dos Estados Unidos em
direção a um tipo de autoritarismo competitivo.
Israel apoia o controle marroquino sobre o território saaraui e a sua expansão em direção a Ceuta e Melilla na construção do Grande Marrocos.
Também não
devemos esquecer o contexto global. O futebol foi, e continua a ser, um
elemento central na geopolítica mundial. Não faltam exemplos: a vitória da
Argentina sobre a Inglaterra, em 1986, após a sua derrota na Guerra das
Malvinas; o Campeonato do Mundo de 1934, na Itália de Benito Mussolini; o de
1978, na Argentina de Jorge Rafael Videla; ou a Guerra do Futebol, na América
Central, em 1969.
Entre o futebol e
os conflitos geopolíticos, encaixa-se perfeitamente a recente restrição da
política migratória argentina em decorrência da final do Campeonato do Mundo
que colocou frente a frente Espanha e Argentina. Em 30 de julho deste ano, após
a última partida da competição e a reação generalizada contra os argentinos e
contra tudo o que fosse argentino, o governo de Javier Milei decretou a
expulsão e a proibição de entrada em território argentino de qualquer
estrangeiro que ofendesse os argentinos pelo simples facto de serem argentinos
ou que ofendesse os seus símbolos nacionais.
Diante deste
cenário, em 19 de julho, a Espanha, cujo discurso oficial tinha sido o mais
veemente contra as políticas de Trump e contra o genocídio cometido na
Palestina, venceu o Campeonato do Mundo — e venceu nos Estados Unidos.
Ficou para a
história a imagem do presidente estadunidense premiando os representantes
espanhóis. Além disso, a população de vários países do Oriente Médio, entre
eles a Palestina, apoiou abertamente a seleção espanhola pelo seu
posicionamento contra Benjamin Netanyahu e contra Trump. Essa conjuntura pode
ter aberto espaço para uma “vingança” estadunidense e israelita, tendo Marrocos
como braço executor.
Em resumo,
existem fatores nacionais, internacionais e conjunturais que ajudam a
compreender os fluxos migratórios dirigidos de Marrocos para a Espanha neste 31
de julho. A desconfiança de Marrocos diante da recente aproximação entre
Espanha e Argélia, assim como a amizade do governo marroquino com Israel e os
Estados Unidos, ajudam a explicar as ações do país governado pelo rei Mohammed
VI, que contou com a decisão do Supremo Tribunal como elemento facilitador.
Somado a isso, a
vitória da Espanha no Campeonato do Mundo, entendida como a vitória simbólica
de um governo que se apresenta como líder no cenário internacional em oposição
aos projetos estadunidense e israelita (pelo menos no plano retórico), completa
o conjunto de fatores que deram origem à recente crise na cidade de Ceuta.
Limitar-se a uma única explicação seria um ato simplista, e a geopolítica e as
relações internacionais nunca são simples.
O que está claro
é que a situação em Ceuta não deve ser interpretada como resultado de um fluxo
migratório espontâneo, mas sim como um ato de política externa, repleto de
nuances e complexidades.
Fonte: Da Palestina ao
Saara Ocidental, a crise de Ceuta revela uma guerra travada sem exércitos
Diálogos do Sul Global, publicado e acedido em 03.08.2026
Tradução de TAM
