segunda-feira, 20 de julho de 2026

Che Guevara na Assembleia Geral da ONU,1964

(Parte II/II)







11 de dezembro de 1964, 19ª Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York (continuação)





Os perspicazes ministros das Relações Exteriores da Organização dos Estados Americanos tinham olhos para ver os emblemas cubanos e encontrar provas "irrefutáveis" nas armas que os ianques exibiram na Venezuela, mas não perceberam os preparativos para a agressão nos Estados Unidos, assim como não ouviram a voz do presidente Kennedy, que explicitamente se declarou agressor contra Cuba em Playa Girón [invasão da Baía dos Porcos de abril de 1961]. Em alguns casos, é uma cegueira provocada pelo ódio à nossa revolução pelas classes dominantes dos países latino-americanos. Noutros — e esses são mais tristes e deploráveis — é o produto do brilho ofuscante de Mamon.





Como é bem sabido, após a enorme comoção da chamada crise caribenha, os Estados Unidos assumiram certos compromissos com a União Soviética. Esses fatores culminaram na retirada de certos tipos de armas que os contínuos atos de agressão dos Estados Unidos — como o ataque mercenário em Playa Girón e ameaças de invasão contra a nossa pátria — nos obrigaram a instalar em Cuba como um ato legítimo e essencial de defesa.





Os Estados Unidos, além disso, tentaram fazer com que a ONU inspecionasse o nosso território. Mas recusámos enfaticamente, já que Cuba não reconhece aos Estados Unidos nem a ninguém no mundo, o direito, de determinar o tipo de armas que Cuba pode ter dentro das suas fronteiras.





Neste sentido, cumpriríamos apenas acordos multilaterais, com obrigações iguais para todas as partes envolvidas. Como disse Fidel Castro: "Enquanto o conceito de soberania existir como prerrogativa das nações e dos povos independentes, como direito de todos os povos, não aceitaremos a exclusão do nosso povo desse direito. Enquanto o mundo for governado por esses princípios, enquanto o mundo for governado por conceitos que têm validade universal porque são universalmente aceites e reconhecidos pelos povos, não aceitaremos a tentativa de nos privar de nenhum desses direitos, e não renunciaremos a nenhum desses direitos." O Secretário-Geral das Nações Unidas, U Thant, entendeu os nossos motivos. No entanto, os Estados Unidos tentaram estabelecer uma nova prerrogativa, arbitrária e ilegal: a de violar o espaço aéreo de um país pequeno. Assim, vemos aeronaves U-2 e outros tipos de aviões espiões no ar que, impunemente, sobrevoam o nosso espaço aéreo. Fizemos todos os avisos necessários para que cessem as violações do nosso espaço aéreo, bem como para a suspensão das provocações da Marinha dos EUA contra os nossos postos de sentinela na zona de Guantánamo, o zumbido de aeronaves sobre os nossos navios ou navios de outras nacionalidades em águas internacionais, os ataques piratas contra navios navegando sob diferentes bandeiras, e a infiltração de espiões, sabotadores e armas na nossa ilha.





Queremos construir o socialismo. Declarámos que apoiamos aqueles que lutam pela paz. Declarámos que fazemos parte do grupo dos países não alinhados, embora sejamos marxistas-leninistas, porque os países não alinhados, como nós, lutam contra o imperialismo. Queremos paz. Queremos construir uma vida melhor para o nosso povo. É por isso que evitamos, na medida do possível, cair nas provocações fabricadas pelos ianques. Mas conhecemos a mentalidade daqueles que os governam. Eles querem fazer-nos pagar um preço muito alto por essa paz. Respondemos que o preço não pode ir além dos limites da dignidade.





E Cuba reafirma mais uma vez o direito de manter no seu território as armas que julgar apropriadas e a sua recusa em reconhecer o direito de qualquer potência na Terra — por mais poderosa que seja — de violar o nosso solo, as nossas águas territoriais ou o nosso espaço aéreo.





Se, em qualquer assembleia, Cuba assumir obrigações de natureza coletiva, ela
cumpri-las-á à risca. Enquanto isso não acontecer, Cuba mantém todos os seus direitos, assim como qualquer outra nação. Diante das exigências do imperialismo, o nosso primeiro-ministro expôs os cinco pontos necessários para a existência de uma paz segura no Caribe. São elas:





1. A suspensão do bloqueio económico e de todas as pressões económicas e comerciais dos Estados Unidos, em todas as partes do mundo, contra o nosso país.





2. Suspensão de todas as atividades subversivas, lançamento e desembarque de armas e explosivos por via aérea e marítima, organização de invasões mercenárias, infiltração de espiões e sabotadores, atos todos eles realizados a partir do território dos Estados Unidos e de alguns países cúmplices.





3. A suspensão dos ataques de piratas realizados a partir de bases existentes nos Estados Unidos e Porto Rico.





4. A suspensão de todas as violações do nosso espaço aéreo e das nossas águas territoriais por aeronaves e navios de guerra dos EUA.





5. Retirada da base naval de Guantánamo e a devolução do território cubano ocupado pelos Estados Unidos."





Nenhuma destas exigências elementares foi correspondida, e as nossas forças ainda estão a ser provocadas pela base naval de Guantánamo. Essa base tornou-se um ninho de ladrões e uma plataforma de lançamento ao seu serviço no nosso território. Cansaríamos esta Assembleia se déssemos um relato detalhado do grande número de provocações de todos os tipos. Basta dizer que, incluindo os primeiros dias de dezembro, o número chegou a 1323 somente em 1964. A lista abrange provocações menores, como violação da linha de fronteira, lançamento de objetos do território controlado pelos Estados Unidos, a prática de atos de exibicionismo sexual por pessoal americano de ambos os sexos e insultos verbais. Inclui outros que são mais graves, como disparar armas de pequeno calibre, apontar armas ao nosso território e ofensas contra a nossa bandeira nacional. Provocações extremamente graves incluem a travessia da linha de fronteira e o atear de incêndios em instalações do lado cubano, bem como tiros de armas automáticas. Houve 78 disparos de armas automáticas este ano, com o triste número de uma morte: Ramón López Peña, um soldado, morto por dois tiros disparados do posto dos EUA a três quilómetros e meio da costa, na fronteira norte. Essa provocação extremamente grave ocorreu às 19h07 de 19 de julho de 1964, e o primeiro-ministro do nosso governo declarou publicamente em 26 de julho que, se o caso se repetisse, daria ordens para que as nossas tropas repelissem a agressão. Ao mesmo tempo, foram dadas ordens para a retirada da linha avançada das forças cubanas para posições mais distantes da linha de fronteira e para a construção das posições fortificadas necessárias. Mil trezentos e vinte e três provocações em 340 dias somam aproximadamente quatro por dia. Só um exército perfeitamente disciplinado, com uma moral como a nossa, poderia resistir a tantos atos hostis sem perder o autocontrole.





Quarenta e sete países reunidos na Segunda Conferência de Chefes de Estado ou de Governo dos Países Não Alinhados, no Cairo, concordaram unanimemente com o seguinte:





Observando com preocupação que bases militares estrangeiras são, na prática, um meio de pressionar as nações e retardar a sua emancipação e desenvolvimento com base nas suas próprias ideias políticas, económicas, ideológicas, e culturais, a conferência declara o seu apoio incondicional aos países que visam garantir a eliminação de bases estrangeiras dos seus territórios e apela a todos os Estados que mantêm tropas e bases noutros países a removê-las imediatamente. A conferência considera que a manutenção em Guantánamo (Cuba) de uma base militar dos Estados Unidos da América, desafiando a vontade do governo e do povo cubano e desafiando as disposições incorporadas na declaração da conferência de Belgrado, constitui uma violação da soberania e integridade territorial de Cuba.





Observando que o governo cubano expressa a sua disposição para resolver a sua disputa sobre a base em Guantánamo com os Estados Unidos da América em pé de igualdade, a conferência insta o governo dos EUA a abrir negociações com o governo cubano para evacuar a sua base.





O governo dos Estados Unidos não respondeu a esse pedido da conferência do Cairo e está a tentar manter indefinidamente pela força a sua ocupação de uma parte do nosso território, a partir da qual realiza atos de agressão como os detalhados anteriormente.





A Organização dos Estados Americanos — a que o povo também chama Ministério das Colónias dos EUA — condenou-nos "energicamente", mesmo tendo acabado de nos excluir da organização, ordenando que os seus membros rompessem relações diplomáticas e comerciais com Cuba. A OEA autorizou a agressão contra o nosso país a qualquer momento e sob qualquer pretexto, violando as leis internacionais mais fundamentais, desconsiderando completamente as Nações Unidas. Uruguai, Bolívia, Chile e México opuseram-se a essa medida, e o governo dos Estados Unidos do México recusou-se a cumprir as sanções aprovadas. Desde então, não tivemos relações com nenhum país latino-americano, exceto o México, e isso cumpre uma das condições necessárias para se considerar uma agressão direta do imperialismo.





Queremos deixar claro mais uma vez que a nossa preocupação com a América Latina se baseia nos laços que nos unem: a língua que falamos, a cultura que mantemos e o mestre comum que tínhamos. Não temos outra razão para desejar a libertação da América Latina do jugo colonial dos EUA. Se algum dos países latino-americanos aqui decidir restabelecer relações com Cuba, estaríamos dispostos a fazê-lo com base na igualdade, sem ver esse reconhecimento de Cuba como um país livre no mundo como um presente ao nosso governo. Conquistámos esse reconhecimento com o nosso sangue nos dias da luta de libertação. Adquirimo-lo com o nosso sangue na defesa das nossas costas contra a invasão ianque.





Embora rejeitemos quaisquer acusações contra nós de interferência nos assuntos internos de outros países, não podemos negar que simpatizamos com aqueles povos que lutam pela sua liberdade. Devemos cumprir a obrigação do nosso governo e do povo de declarar clara e categoricamente ao mundo que apoiamos moralmente e nos solidarizamos com os povos que lutam em qualquer lugar do mundo para tornar realidade os direitos de plena soberania proclamados na Carta da ONU.





São os Estados Unidos que intervêm. Historicamente, isso aconteceu na América Latina. Desde o final do século passado, Cuba experimentou essa verdade; mas também foi vivida pela Venezuela, Nicarágua, América Central em geral, México, Haiti e República Dominicana. Nos últimos anos, além do nosso povo, o Panamá experimentou a agressão direta, onde os fuzileiros na Zona do Canal abriram fogo a sangue frio contra o povo indefeso; a República Dominicana, cuja costa foi violada pela frota ianque para evitar um surto da justa fúria do povo após a morte de Trujillo; e a Colômbia, cuja capital foi tomada de assalto em decorrência de uma rebelião provocada pelo assassinato de Gaitán. [18] São realizadas intervenções secretas através de missões militares que participam na repressão interna, organizando forças destinadas a esse fim em muitos países, e também em golpes de Estado, que têm sido repetidos com tanta frequência no continente latino-americano nos últimos anos. Concretamente, as forças dos EUA intervieram na repressão dos povos da Venezuela, Colômbia e Guatemala, que lutaram armados pela sua liberdade. Na Venezuela, as forças dos EUA não só aconselham o exército e a polícia, mas também dirigem atos de genocídio realizados pelo ar contra a população camponesa em vastas áreas insurgentes. E as companhias ianques que aí operam exercem pressões de todos os tipos para aumentar a interferência direta. Os imperialistas estão a preparar-se para reprimir os povos das Américas e estão a estabelecer uma Internacional do Crime.





Os Estados Unidos intervêm na América Latina invocando a defesa das instituições livres. Chegará o momento em que esta Assembleia adquirirá maior maturidade e exijirá garantias ao Governo dos EUA para a vida dos negros e latino-americanos que vivem naquele país, a maioria deles cidadãos americanos por origem ou adoção.





Aqueles que matam os seus próprios filhos e os discriminam diariamente por causa da cor da pele; aqueles que deixam os assassinos de negros permanecerem livres, protegendo-os e, além disso, punindo a população negra porque exige os seus direitos legítimos como homens livres — como é que aqueles que fazem isto podem considerar-se guardiões da liberdade? Entendemos que hoje a Assembleia não está em posição de pedir explicações sobre esses atos. Deve ficar claramente estabelecido, no entanto, que o governo dos Estados Unidos não é o campeão da liberdade, mas sim o perpetrador da exploração e opressão contra os povos do mundo e contra grande parte da sua própria população.





À linguagem ambígua com que alguns delegados descreveram o caso de Cuba e da OEA, respondemos com palavras claras e proclamamos que os povos da América Latina farão com que esses governos servis e vendidos paguem pela sua traição.





Cuba, ilustres delegados, um Estado livre e soberano sem correntes que o prendam a ninguém, sem investimentos estrangeiros no seu território, sem procônsules a dirigir a sua política, pode falar com a cabeça erguida nesta Assembleia e demonstrar a justeza da frase com a qual foi batizado: "Território Livre das Américas." O nosso exemplo dará frutos no continente, como já está a acontecer em certa medida na Guatemala, Colômbia e Venezuela.





Não há inimigo pequeno nem força insignificante, pois já não existem povos isolados. Como afirma a Segunda Declaração de Havana:





Nenhuma nação na América Latina é fraca — porque cada uma faz parte de uma família de 200 milhões de irmãos, que sofrem as mesmas misérias, que alimentam os mesmos sentimentos, que têm o mesmo inimigo, que sonham com o mesmo futuro melhor e que contam com a solidariedade de todos os homens e mulheres honestos ao redor do mundo…





Este epopeia que se apresenta perante nós será escrita pelas massas indianas famintas, pelos camponeses sem terra, pelos trabalhadores explorados. Será escrito pelas massas progressistas, pelos intelectuais honestos e brilhantes, que abundam nas nossas terras latino-americanas em sofrimento. Lutas de massas e ideias. Uma epopeia que será levada a cabo pelos nossos povos, maltratados e desprezados pelo imperialismo; o nosso povo, desconhecido até hoje, que agora começa a despertar do seu sono. O imperialismo considerava-nos um rebanho fraco e submisso; e agora começa a ter medo dele; um rebanho gigantesco de 200 milhões de latino-americanos nos quais o capitalismo monopolista ianque agora vê os seus coveiros…





Mas agora, de uma ponta à outra do continente, eles sinalizam com clareza que chegou a hora — a hora da sua desforra. Agora esta massa anónima, esta América negra, sombria, taciturna, que por todo o continente canta com a mesma tristeza e desilusão, agora essa massa está a começar a entrar definitivamente na sua própria história, a começar a escrevê-la com o seu próprio sangue, a começar a sofrer e morrer por ela.





Porque agora, nas montanhas e campos da América, nas suas planícies e nas suas selvas, na natureza selvagem ou no tráfego das cidades, nas margens dos seus grandes oceanos ou rios, este mundo começa a tremer. Estendem-se mãos ansiosas, prontas para morrer pelo que lhes pertence, para conquistar aqueles direitos que foram ridicularizados por todos durante 500 anos. Sim, agora a história terá de levar em conta os pobres da América, os explorados e rejeitados pela América, que decidiram começar a escrever a sua história para si mesmos para sempre. Já podem ser vistos nas estradas, a pé, dia após dia, em marcha interminável de centenas de quilómetros até às "eminências" governamentais, para aí obterem os seus direitos.





Já podem ser vistos armados com pedras, paus, facões, numa direção e noutra, todos os dias, ocupando terras, cravando estacas na terra que lhes pertence e defendendo-a com as suas vidas. Podem ser vistos, gritando palavras de ordem, carregando cartazes, bandeiras; deixando-as esvoaçar com os ventos da montanha ou da pradaria. E a onda de raiva, de exigências por justiça, de reivindicações de direitos espezinhados, que começa a varrer as terras da América Latina, não vai parar. Essa onda vai crescer a cada dia que passa. Pois essa onda é composta pelo maior número, as maiorias em todos os aspetos, aqueles cujo trabalho acumula riqueza e faz girar as rodas da história. Agora eles estão a despertar do longo e brutal sono ao qual foram submetidos.





Pois essa grande massa da humanidade disse: "Chega!" e começou a marchar. E a sua marcha de gigantes não será interrompida até conquistarem a verdadeira independência — pela qual morreram em vão mais de uma vez. Hoje, porém, aqueles que morrerem morrerão como os cubanos em Playa Girón. Eles morrerão pela sua verdadeira independência que jamais se renderá.





Tudo isto, ilustres delegados, esta nova vontade de todo um continente, da América Latina, se manifesta no grito proclamado diariamente pelas nossas massas como a expressão irrefutável da sua decisão de lutar e paralisar a mão armada do invasor. É um grito que conta com a compreensão e o apoio de todos os povos do mundo e, especialmente, do campo socialista, liderado pela União Soviética.





Esse grito é: Patria o muerte! [Pátria ou morte]





[18] Do final de 1960 até 1961, o governo revolucionário iniciou uma campanha de alfabetização para ensinar um milhão de cubanos a ler e escrever. No centro desse esforço estava a mobilização de 100 000 jovens para irem para o campo, onde viveram com os camponeses que ensinavam. Como resultado dessa campanha, Cuba praticamente eliminou o analfabetismo.








Fonte: Dos Clássicos: Che Guevara na Assembleia Geral da ONU, 1964 – MLTudayPublicado e acedido em 07.06.2026

Foto: https://mltoday.com/wp-content/uploads/2026/05/Che-at-UN.jpg




Tradução de TAM

Che Guevara na Assembleia Geral da ONU,1964

(Parte II/II) 11 de dezembro de 1964, 19ª Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York (continuação) Os perspicazes ministros das Relaçõ...