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Não havia fluido intravenoso suficiente na urgência. Os hospitais pediátricos historicamente foram o último refúgio protegido das nossas piores carências. Mesmo nos nossos anos mais difíceis, tentámos proteger as crianças. Naquela noite, apenas o diretor do hospital autorizava cada frasco de fluido como se fosse ouro puro. Não era ouro, era só sal e água, mas eles só tinham algumas garrafas disponíveis.

Sou cirurgião em Havana, Cuba. Não vou usar o meu nome — não porque tema o meu governo, mas porque temo o vosso e o que ele pode fazer contra aqueles que amo.
No mês passado, operei um senhor idoso com uma úlcera péptica perfurada. A cirurgia foi clássica. Concluí o encerramento da cavidade abdominal sem contaminação, sem complicações. Tínhamos antibióticos disponíveis naquela época. O que não tínhamos era fluido cristaloide intravenoso para ressuscitação. É a solução mais básica, barata o suficiente para não custar quase nada, mas essencial o bastante para economizar quase tudo. Ela existe. É fabricada em Santiago de Cuba, a 500 milhas de distância. Não conseguia chegar a Havana, pois não havia petróleo para ir buscá-la. Quando chegou, o meu paciente já tinha morrido.
Quero que o leitor pense nisso antes de discutirmos política.
Agora quero contar um episódio ocorrido com uma menina de dois anos, filha de amigos meus. Há duas semanas atrás, ela desenvolveu gastroenterite severa — vomitando vinte vezes ao dia, desidratando-se rapidamente. Os pais levaram-na à pressa para um hospital pediátrico em Havana. Não havia fluido intravenoso suficiente na emergência. Os hospitais pediátricos historicamente foram o último refúgio protegido das nossas carências. Mesmo nos nossos anos mais difíceis, tentámos proteger as crianças. Naquela noite, apenas o diretor do hospital autorizava cada frasco de fluido como se fosse ouro puro. Não era ouro, era só sal e água, mas eles só tinham algumas garrafas disponíveis.
Estas não são tragédias isoladas. São os resultados pretendidos.
A taxa de mortalidade infantil em Cuba — antes inferior à dos Estados Unidos, uma conquista genuína do nosso sistema de saúde pública — vem subindo de 5 para mais de 7,1 por 1 000 nados vivos, a partir de 2019. Dois terços dos medicamentos essenciais estão indisponíveis ou em escassez.
Têm surgido Arbovírus como dengue, Oropouche e chikungunha Segundo o próprio instituto de estatísticas de Cuba, o país assistiu ao êxodo de mais de 1,4 milhões de habitantes desde 2020 — entre eles milhares de médicos — e registou o menor número de nascimentos em 65 anos. Somente em 2024-2025, o bloqueio dos EUA custou a Cuba 7,5 mil milhões de dólares. Ao longo de 65 anos, os danos acumulados ultrapassaram mais de 170 mil milhões de dólares. Isto não é uma crise de governação. Isto é ruína fabricada: a aplicação deliberada da máxima pressão económica até que uma nação se desmorone, e então atribuir os destroços à própria nação. Os destroços são então citados como justificação para uma intervenção militar, e a intervenção como caminho para os recursos cobiçados.
A política dos EUA em relação a Cuba foi desenhada desta forma. Em 1960, o vice-secretário assistente de Estado dos EUA, Lester Mallory, escreveu um memorando interno (agora desclassificado) que defendia explicitamente medidas para promover "fome, desespero e derrube do governo" em Cuba por meio de dificuldades económicas deliberadas. Esse embargo dos EUA foi estabelecido para incluir todo o comércio com Cuba em 1962. É considerado ilegal. Sessenta e cinco anos depois, essa estratégia não foi abandonada. Foi refinada. A designação de Estado Patrocinador do Terrorismo exclui Cuba do sistema financeiro internacional — sem transações, sem acesso bancário, empresas estrangeiras ameaçadas por fazerem negócios connosco. Recentemente, Cuba foi declarada pelo presidente dos EUA como uma "ameaça extraordinária aos EUA" e foi emitida uma ordem impedindo qualquer país do mundo de fornecer petróleo à ilha. O bloqueio naval de janeiro de 2026, que cortou o nosso abastecimento principal de combustível, é a expressão mais aguda e recente do embargo dos EUA. Também é ilegal.
Neste contexto, os Estados Unidos anunciaram recentemente US$ 6 milhões de ajuda a Cuba, entregues por canais explicitamente projetados para contornar o governo cubano. Cuba perde 20 milhões de dólares para o bloqueio todos os dias. Seis milhões não é um gesto de boa vontade. É cinismo traduzido em dólares.
Quando leio artigos sobre sobre Cuba na imprensa americana, sou impactado, todas as vezes, pela mesma omissão. As sanções — que afetam 100% dos cubanos, a cada hora de cada dia — recebem apenas uma menção passageira, uma cláusula subordinada, um breve reconhecimento rapidamente equilibrado por conversas sobre "falhas na política interna." Isto não é neutralidade. É uma escolha que serve o poder e protege o agressor.
Aqui está como o bloqueio parece do lado de dentro. A nossa rede elétrica falha até 22 horas por dia, mesmo na capital. As crianças ficam sentadas no escuro, impossibilitadas de fazer os trabalhos de casa. Os professores não conseguem preparar as suas aulas. Quando a energia falha e não há gás natural nas casas, as famílias cozinham sobre fogueiras a lenha na rua. E então acontece algo que quero que todos os americanos entendam: outros vêm-se juntar a eles. As famílias começaram a fazer a rotação das tarefas de cozinha para bairros inteiros — compartilhando o que têm, garantindo que todos comam. Isto não é um programa do governo. Isto é um povo que se recusa a deixar os outros passar fome.
Por toda a ilha, os cubanos estão a instalar painéis solares em telhados, a construir o seu futuro energético com as suas próprias mãos. Mudaram de veículos a gasolina para triciclos elétricos para transporte e comércio. Alguns deles são voluntários que dedicam dias específicos por semana para transportar pacientes em hemodiálise para os hospitais, gratuitamente. Nas estradas, parar para dar boleia é uma questão do dia a dia e de obrigação legal — funcionários do governo, polícias, médicos, tenentes-coronéis das forças armadas cubanas, artistas, idosos, jovens, todos partilham boleias num país onde o combustível se tornou precioso. Carros com placas do governo são obrigados por lei a embarcar passageiros. Não é incomum ver um poeta e um operário de fábrica, partilhando o banco de trás do carro de um estranho, a caminho de casa. Nas ocasionais sextas-feiras à noite depois do trabalho, os meus colegas e eu juntamos algo para comer, encontramos rum, dominós, música e cada um — com os filhos correndo entre nossas pernas - dança antes mesmo de saber as letras das músicas. Não apesar de tudo. Por causa de tudo.
Sou médico há mais de duas décadas — dupla certificação em medicina de família e cirurgia geral. Trabalho num hospital público universitário (todos os hospitais são públicos) no centro de Havana, gerindo traumas e emergências cirúrgicas. O meu salário triplicou nos últimos 10 anos. Ainda não é suficiente para viver. Os meus pacientes e as suas famílias ligam-me pelo telemóvel, às vezes anos após a cirurgia, quando surge uma nova preocupação, quando estão assustados, quando precisam de alguém em quem confiem. Os meus estagiários médicos, cada vez mais e compreensivelmente, querem sair. O bloqueio está a esvaziar a próxima geração da medicina cubana por dentro, empurrando os cubanos para os Estados Unidos e outros países em números que não víamos no tempo de Barack Obama. Era uma época em que a nossa qualidade de vida era muito melhor, quando cubano-americanos estavam a regressar à ilha para investir e os negócios privados prosperavam. Essa reversão não é destino. É política.
No meu hospital, ensino estudantes de medicina da ELAM — a Escola Latino-Americana de Medicina, que já formou médicos de 122 países e formou perto de 31 000 médicos. É considerada a maior escola de medicina do mundo. É aqui que estudantes de comunidades rurais e carentes de todo o Sul Global estudam medicina gratuitamente. Vêm de origens humildes. Os meus alunos vêm de Angola, Moçambique, República Democrática do Congo, Namíbia, África do Sul, Gana, Saara Ocidental, Colômbia, Bolívia, México, Venezuela, Timor Leste, Nepal, Nicarágua, Domínica, Vietname, Palestina e até da Alemanha, Canadá, Estados Unidos e outros. Um dos palestinianos é um jovem de Tulkaram, na Cisjordânia ocupada. Decidiu, aos quatorze anos, depois de ver o seu tio, um médico formado em Cuba, que um dia também estudaria medicina em Havana. Partiu de uma cidade sitiada militarmente para aprender cirurgia num país em crise económica. Outra estudante de medicina, uma das melhores que já formei em cirurgia, é uma jovem que regressa à República Democrática do Congo. O seu país vive uma guerra contínua há mais de trinta anos. Ela praticou mais do que qualquer um que já ensinei, porque já sabe o que a espera: feridas de guerra e ferimentos que raramente vemos em Cuba, e enfrentará isso em grande parte sozinha. Foi uma das melhores alunas que já ensinei. Ela vai precisar, o seu país precisa dela.
Também fui orgulhosamente selecionado para as intensamente competitivas (e às vezes lucrativas) missões médicas cubanas que enviaram mais de 605 000 profissionais de saúde para mais de 165 países desde 1963. Serei honesto convosco: alguns médicos cubanos que regressam de missões médicas no exterior ganham o suficiente para comprar um carro, uma casa ou consertar um telhado – tudo para dar uma vida melhor aos seus filhos. Na época da minha primeira missão médica em 2010, ganhava mais de 5 vezes o meu salário cubano. Não há contradição nisso. Serviço e dignidade não são mutuamente exclusivos.
Servi nos bairros urbanos pobres de Caracas como parte da missão cirúrgica de Cuba que atuava ao lado do Barrio Adentro — o programa emblemático venezuelano que trouxe médicos cubanos para comunidades onde nenhum tinha trabalhado antes. Foi através de uma brigada cirúrgica cubana semelhante que servi nas comunidades rurais da Bolívia. Em Caracas, consertei uma hérnia ao filho de exilados cubanos que tinham fugido da ditadura de Batista. Depois, a família dele colocou uma moeda de prata nas minhas mãos. Ostentava o rosto de José Martí, o poeta e revolucionário que liderou a independência de Cuba da Espanha. A moeda tinha sido cunhada para o centenário do nascimento de Martí — 1953, o exato ano em que essa família fugiu da ilha. Levaram-na para fora de Cuba com eles, e guardaram-na como um tesouro durante décadas e agora escolheram entregá-la a um médico cubano para lhe agradecer por manter viva a solidariedade nas Américas.
Em Yacuiba, Bolívia, tratei de uma mulher grávida de uma família de classe média, visitando-a em casa, pois a medicina deve ser praticada sempre que é possível. Ela já estava a ir a uma clínica particular. Após a minha primeira visita, ela e o marido decidiram entregá-la aos meus cuidados. Quando o filho nasceu, puseram-lhe o meu nome em minha homenagem. Não realizei nenhum ato heroico. Simplesmente apareci, fiquei e tratei-a como alguém merecedor de atenção total.
Na Guatemala, um programa de quase 30 anos que envia médicos cubanos para comunidades indígenas — muitos que nunca tinham tido médicos antes — está a ser desmontado sob pressão direta dos EUA. As Honduras acabam de expulsar os seus 128 médicos cubanos, encerrando um programa oftalmológico que realizou quase 7 000 cirurgias para acabar com a cegueira. Isto aconteceu depois de cancelamentos semelhantes no Brasil (2018), Equador e Bolívia (ambos em 2019). Washington ameaçou revogar os vistos de qualquer funcionário do governo que continue a empregar médicos cubanos. Os primeiros-ministros de Barbados, Trinidad e Tobago e São Vicente disseram que preferem perder os seus vistos nos EUA do que perder os médicos cubanos que mantêm os seus hospitais abertos. Os cancelamentos ocorreram apesar dos protestos dos próprios pacientes. Serem atendidos por um médico cubano, ou não serem atendidos por nenhum: Washington fez essa escolha por eles.
Um estudo de 2025 publicado no The Lancet Global Health constatou que medidas coercivas unilaterais, como sanções, estão associadas a aproximadamente 564 000 mortes anualmente no mundo todo. Crianças com menos de cinco anos são as vítimas de mais de metade dessas mortes evitáveis. Entre os regimes de sanções estudados, as sanções dos EUA mostraram os efeitos de mortalidade mais fortes. A Assembleia Geral das Nações Unidas votou, todos os anos desde 1992, a favor da condenação do embargo dos EUA contra Cuba. Em outubro de 2024, a votação foi de 187 nações contra 2. Os Estados Unidos e Israel ficaram sozinhos contra o mundo.
Cuba tem as suas próprias contradições e falhas. Sabemos disso. Discutimos entre nós, muitas vezes com intensidade. São debatidas propostas de leis nos nossos locais de trabalho, bairros e online antes de serem apresentadas para aprovação à Assembleia Nacional. Temos muito a melhorar para ter mais controlo social sobre o governo. Esses desafios são para enfrentar por nós — nos nossos próprios termos, no nosso próprio tempo. Por exemplo, vários altos funcionários do governo foram presos por corrupção. No entanto, eles não são um pretexto para uma potência estrangeira fabricar o nosso colapso, ficar com os nossos recursos e chamar a isso libertação.
As pessoas perguntam por que razão eu continuo cá. A resposta não é complicada. Sou patriota — não como um rótulo, mas como uma vida. Acredito que a minha obrigação não termina na minha porta, nem na entrada do hospital, nem nas fronteiras do meu país. Eu acredito num país que pertence a todos, não a poucos privilegiados. Acredito em algo maior do que qualquer um de nós: a possibilidade de uma sociedade construída não sobre o lucro, mas sobre justiça social, dignidade e respeito por cada ser humano. Acredito numa sociedade global onde o potencial, habilidade, talento e genialidade inatos dentro de cada um de nós possam florescer e serem livremente compartilhados uns com os outros. Acredito na sociedade que estamos a construir aqui, imperfeita, sitiada e nossa. Acredito que nenhum político estrangeiro, que nada sabe do meu país, deveria decidir se o meu filho tem ou não tem o que comer. Acredito que nenhuma potência estrangeira tem o direito de entrar nesta ilha, esvaziar o seu povo pela fome e chamar a isso liberdade. Se chegasse a esse ponto — se a defesa desta pátria exigisse tudo — eu daria tudo. Isto não é bravata. É a mesma convicção que me faz levantar da cama antes do amanhecer, que me faz atender o telefone à meia-noite quando um paciente assustado liga, ou que me manteve numa fila de gasolina durante 23 horas há duas semanas atrás, quando a gasolina era escassa, mas ainda disponível.
Cuba não é um Estado falido à espera de ser resgatado. Cuba é um povo — brilhante, teimoso, generoso e vibrante — que se recusou durante sessenta e cinco anos a tornar-se o mercado de outros. Somos o senhor idoso que sobreviveu à minha cirurgia, mas não ao bloqueio. Somos a criança de dois anos desidratada e sem fluidos intravenosos suficientes. Somos o médico e o diretor do hospital decidindo como afetar recursos escassos, quando todos merecem. Somos a médica congolesa que regressa a casa para curar o seu país devastado pela guerra com as ferramentas clínicas que Cuba lhe dera. Somos o exilado cubano que guardou uma moeda Martí numa gaveta em Caracas durante décadas, esperando um motivo para a oferecer. Somos a criança boliviana que recebeu o nome em homenagem a um médico que simplesmente apareceu. Somos os estranhos que compartilham uma casa no banco de trás. Ainda estamos aqui. Ainda estamos a ensinar, a operar, a cozinhar uns para os outros sobre fogueiras de lenha e ainda a dançar com os nossos filhos nas noites de sexta-feira.
Fonte: Sanctions Kill. I Have Watched Them Do It. - CounterPunch.org, publicado e acedido em 21.05.2026
Tradução de TAM