sexta-feira, 5 de junho de 2026

A transição que nunca acontece e o congelamento dos salários

Editorial de Tribuna Popular, órgão informativo do Comité Central do Partido Comunista da Venezuela

 

Tudo isso acontece no meio de uma suposta "transição para a democracia" que não passa de uma ilusão cuidadosamente construída. Embora haja conversas sobre integridade institucional, o enquadramento legal do país está a ser redesenhado para servir os interesses do capital transnacional, especialmente do capital dos EUA. Reformas legais, acordos económicos e sinais políticos apontam todos numa única direção: a adaptação do país a novas formas de dependência.

 


                                Delcy Rodriguez reúne-se com diretor da CIA em Caracas

O sítio "Transparência Soberana" lançado pela administração de Delcy Rodríguez (para supostamente detalhar o dinheiro repatriado das vendas de petróleo intermediadas pelos EUA) é, por si só, uma paródia. Os números somam-se como por magia: 300 milhões entram, 300 milhões saem. Tudo está perfeitamente organizado... exceto num detalhe fundamental: que o dinheiro não vai para salários ou pensões — que foram congelados por quatro anos — mas sim diluído em bónus discricionários que não geram direitos nem estabilidade para a classe trabalhadora. 

 

Enquanto isso, porta-vozes oficiais e alguns economistas abastados repetem o mesmo refrão: "não há dinheiro." Mas ninguém explica — ou publica — dados essenciais. Quantos trabalhadores estão na folha de pagamento do governo? Quantos reformados estão realmente inscritos no sistema de Previdência Social? Qual é a receita real do petróleo? É irrealista exigir salários indexados ao cabaz básico de bens? A resposta é sempre a mesma: silêncio. 

 

Essa opacidade não é por acaso. É o pano de fundo da catástrofe social que o país está a enfrentar. Sem informações públicas verificáveis, sem prestação de contas, é construída uma narrativa que tenta justificar o injustificável: salários de fome num país com recursos enormes. 

 

A realidade, no entanto, está a fazer-se sentir nas ruas. Protestos por salários e reformas dignos ressurgiram em todo o país. Trabalhadores e reformados exigem o cumprimento do Artigo 91º da Constituição e denunciam que os seus rendimentos não são suficientes para sobreviver. Exigem salários, não subsídios. Eles exigem direitos, não esmolas. E a resposta dos que estão no poder tem sido a mesma de sempre: intimidação, assédio policial e tropas de choque para tentar conter a agitação social. Pelo menos já não podem acusar ninguém de ser agente da CIA porque o chefe da inteligência dos EUA veio e, sem surpresa para ninguém, encontrou-se nada mais nada menos do que com o presidente interino e o recém-nomeado ministro da defesa. 

Ao mesmo tempo, o país está a testemunhar outro espetáculo revelador: o "debate" à porta fechada para nomear um novo Defensor do Povo1. Uma figura que, em teoria, deveria garantir os direitos dos cidadãos, mas que na prática esteve tão ausente quanto os números reais do setor petrolífero. Estruturas institucionais estão a ser esvaziadas enquanto os discursos são preenchidos com formalidades vazias. 

 

No caso do Gabinete do Procurador-Geral, a saída de Tarek William Saab — cujo mandato deixa um rasto de impunidade difícil de apagar — não representa uma mudança fundamental, mas sim uma reconfiguração interna de um sistema que permanece sem responsabilidade. Não há justiça sem verdade, e não há verdade sem transparência. 

 

Tudo isso acontece no meio de uma suposta "transição para a democracia" que não passa de uma ilusão cuidadosamente construída. Embora haja conversas sobre integridade institucional, o enquadramento legal do país está a ser redesenhado para servir os interesses do capital transnacional, especialmente do capital dos EUA. Reformas legais, acordos económicos e sinais políticos apontam todos numa única direção: a adaptação do país a novas formas de dependência. 

 

As repetidas declarações e gestos de apoio de Washington, incluindo o próprio elogio de Donald Trump à administração de Delcy Rodríguez, não são gratuitos. São a confirmação de que está a ser cumprida uma agenda. Uma agenda que não serve os interesses da classe trabalhadora venezuelana, mas sim os do capital internacional. 

 

Nesse cenário, a "transição" não passa de uma farsa. Não pode haver democracia com salários em frangalhos, instituições opacas e decisões tomadas nas costas do povo. 

 

A verdadeira luta não é entre fações do poder — muito menos enfrentamos uma cruzada anti-imperialista — mas entre um modelo que condena a maioria à precariedade e a necessidade de construir uma alternativa baseada na soberania e nos direitos reais da classe trabalhadora. 

 

 

1 Espécie de Provedor de Justiça 

https://prensapcv.wordpress.com/2026/04/20/editorial-the-transition-that-never-comes-and-frozen-wages/ 

https://prensapcv.wordpress.com/2026/04/20/editorial-the-transition-that-never-comes-and-frozen-wages/ 

Fonte: Editorial: The transition that never comes and frozen wages – Tribuna Popular , publicado em 20.04.2026, acedido em 28.05.2026 

Foto: https://album.mediaset.es/eimg/2026/01/16/jefe-de-la-cia-y-delcy-rodriguez-16-9-aspect-ratio-default-0_da39.png

 

Tradução de TAM 

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