Marjorie Cohn
Israel está a bombardear o sul do Líbano e a deslocar grande parte da sua população. Assim como em Gaza, as ações israelitas enquadram-se claramente na definição de genocídio estabelecida na Convenção sobre Genocídio.
Israel também está a cometer crimes de guerra e crimes contra a humanidade no Líbano.
Enquanto a atenção mundial está focada na agressão dos EUA-Israel ao Irão e nas proclamações genocidas de Donald Trump, Israel está a perpetrar genocídio no Líbano.
Trump ameaçou genocídio no Irão em 7 de abril, afirmando: "Uma civilização inteira morrerá esta noite." No dia seguinte, concordou com um cessar-fogo de duas semanas. Em resposta, Israel quase imediatamente intensificou o seu ataque ao Líbano, embora os diplomatas paquistaneses que facilitavam as negociações entre os EUA e o Irão tenham dito que o Líbano também estava protegido pelo cessar-fogo.
"Poucas horas depois do mundo ter recebido cautelosamente a notícia de um cessar-fogo entre EUA e Israel com o Irão, no Líbano o pesadelo para os civis tornou-se ainda mais assustador", informou a Amnistia Internacional. "Israel tem um histórico lamentável de realizar ataques ilegais no Líbano e demonstrar um desrespeito cruel pela vida civil, alimentado pela impunidade de que os militares israelitas sentem dispor".
Em 26 de janeiro de 2024, o Tribunal Internacional de Justiça determinou que Israel estava plausivelmente a cometer genocídio em Gaza e ordenou-lhe que impedisse a prática de atos genocidas. No entanto, o contínuo fracasso da comunidade internacional em deter o genocídio de Israel em Gaza encorajou-o a replicar a sua estratégia genocida no Líbano.
Atos Genocidas de Israel
Israel está a bombardear o sul do Líbano e a deslocar grande parte da sua população. Assim como em Gaza, as ações israelitas enquadram-se claramente na definição de genocídio estabelecida na Convenção sobre Genocídio.
A Convenção sobre Genocídio define genocídio como atos cometidos "com a intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso", incluindo matar membros do grupo, infligir danos corporais ou mentais graves a membros do grupo, ou infligir deliberadamente condições de vida calculadas para causar a destruição física do grupo, total ou parcialmente.
Em 8 de abril, data do acordo de cessar-fogo, o exército israelita lançou mais de 100 ataques aéreos "em dez minutos e em múltiplas áreas simultaneamente", inclusive em áreas densamente povoadas de Beirute, sem aviso prévio, matando pelo menos 303 pessoas e ferindo mais de 1 150, informou o ministério da saúde do Líbano.
Israel também está a realizar demolições em massa em várias aldeias libanesas ao longo da fronteira entre Israel e o Líbano. O exército israelita está armadilhar casas com explosivos e a destruí-las com detonações remotas.
"A possibilidade de que o Hezbollah possa usar algumas estruturas civis nas aldeias fronteiriças do Líbano para fins militares não justifica a destruição em larga escala de aldeias inteiras ao longo da fronteira", segundo Ramzi Kaiss, investigador libanês da Human Rights Watch.
Israel afirmou que ocupará grandes áreas do sul do Líbano para estabelecer uma "zona de segurança" em toda a área até ao rio Litani, e que as pessoas deslocadas não poderão voltar para as suas casas até que haja garantia de segurança para as cidades do norte de Israel. Se a deslocação de 2 milhões de habitantes de Gaza for uma referência, isso pode significar deslocação de longo prazo e até permanente.
Além disso, Israel está a desativar as infraestruturas de saúde do Líbano, lançando mais de 90 ataques contra hospitais, equipas médicas, ambulâncias e centros de primeiros socorros desde 2 de março. A destruição de hospitais e equipamentos médicos por Israel está a impedir as pessoas de obter atendimento médico. Embora o exército israelita afirme que o Hezbollah está a usar instalações médicas para "atividades terroristas", não forneceu nenhuma prova para sustentar essa alegação.
A Oxfam documentou a destruição das infraestruturas de água e saneamento no Líbano por Israel. Em quatro dias, durante a primeira semana da guerra, Israel "danificou pelo menos sete fontes críticas de água, incluindo reservatórios, redes de canalizações e estações de bombagem que abasteciam quase 7 000 pessoas somente na região de Bekaa." Israel também destruiu redes elétricas, "cortando abastecimentos e serviços vitais para cidades e aldeias inteiras." Pelo menos sete pontes sobre o rio Litani, que liga o sul do Líbano ao resto do país, foram atingidas pelo exército israelita.
Israel forçou um quinto da população do Líbano — mais de 1,2 milhões de pessoas, incluindo 350 000 crianças — a deixarem as suas casas.
A Medical Aid for Palestinians (MAP), uma organização beneficente sediada no Reino Unido que apoia a saúde e a dignidade dos palestinianos que vivem sob ocupação e como refugiados, alerta que as ordens de deslocação forçada de Israel e os ataques em todo o Líbano "estão a incutir medo generalizado entre civis, interrompendo operações humanitárias e ameaçando comunidades de refugiados palestinianos já vulneráveis."
A deslocação forçada, acrescenta o MAP, "ameaça agora consequências catastróficas para a saúde, segurança, meios de subsistência e dignidade. Muitas pessoas — especialmente idosos, pessoas com deficiência e pessoas em extrema pobreza — podem simplesmente não conseguir fugir."
"A escala, o âmbito geográfico e a intensidade coordenada dessas ações indicam uma intenção não apenas de atingir objetivos militares, mas de infligir amplo sofrimento e criar condições de vida que tornem a existência civil insustentável", relatou o Instituto Lemkin para Prevenção de Genocídio e Segurança Humana. "Israel está a infligir terror absoluto ao povo libanês."
Declarações genocidas israelitas
Vários figuras israelitas fizeram declarações indicando intenção de cometer genocídio.
O ministro da Defesa israelita, Israel Katz, pediu a destruição de "todas as casas" nas aldeias fronteiriças do Líbano "de acordo com o modelo usado em Rafah e Beit Hanoun em Gaza." O exército israelita destruiu 90% das casas em Rafah, no sul de Gaza. Em Beit Hanoun, dezenas de milhares de pessoas foram forçadas a fugir e Israel incendiou bairros inteiros numa política de terra queimada.
"Precisamos de atacar e eliminar tudo o que está em Dahieh, Baalbek, Tiro, Sídon, Nabatieh, em todos os sítios", declarou o ex-ministro da Defesa israelita Yoav Gallant, que — juntamente com o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu — foi acusado pelo Tribunal Penal Internacional de crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
Yair Lapid, líder da oposição israelita, admitiu que "pode ser desagradável reduzir duas ou três aldeias libanesas", mas afirmou que seria necessário.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou que o "modelo de Gaza não deve ser replicado no Líbano."
"Israel declarou que não planeia deixar o Líbano mesmo que a atual 'guerra' termine", escreveu Qassam Muaddi para Mondoweiss. "Se o modelo de Gaza servir de guia, Israel parece estar a caminhar para expandir a sua fronteira com o Líbano ... Israel está no processo de redesenhar o mapa do Médio Oriente, especialmente no Líbano" para avançar com o seu objetivo de criar o Grande Israel."
Crimes de Guerra e Crimes contra a Humanidade de Israel
A Quarta Convenção de Genebra considera o alvo de civis, a destruição gratuita de infraestruturas e a transferência ilegal de uma população como crimes de guerra.
Israel também está a cometer crimes contra a humanidade de transferência forçada, extermínio, assassinato e "outros atos desumanos de caráter semelhante que intencionalmente causam grande sofrimento ou ferimentos graves ao corpo ou à saúde mental ou física." Todos esses crimes estão a ser cometidos como "parte de um ataque generalizado ou sistemático dirigido contra qualquer população civil, com conhecimento do ataque", conforme definido pelo Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (TPI).
Embora nem Israel nem o Líbano façam parte do Estatuto de Roma, qualquer país pode processar líderes israelitas com jurisdição universal. De acordo com princípios bem estabelecidos do direito internacional, os crimes processados pelo TPI — incluindo genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade — são crimes de jurisdição universal. Líderes dos EUA podem ser processados por ajudar e encorajar esses crimes ao fornecer assistência militar, diplomática e política a Israel.
O que fazer
Em setembro de 2024, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução para implementar o parecer consultivo de julho de 2024 do Tribunal Internacional de Justiça, que determina que a ocupação israelita do território palestino é ilegal.
A resolução apelava a um embargo de armas e outras sanções a Israel até que ele cessasse as suas violações do direito internacional. A Assembleia Geral atuou sob a Resolução 377 A (V) da Assembleia Geral da ONU, “Unir pela Paz” (Uniting for Peace) , que confere à Assembleia Geral o poder de agir quando o Conselho de Segurança da ONU não consegue manter a paz e a segurança internacionais devido à falta de unanimidade dos seus membros permanentes. Os EUA vetaram seis resoluções do Conselho de Segurança destinadas a deter a carnificina de Israel em Gaza.
O que podemos fazer para parar o massacre?
Se os EUA estão decididos a continuar a apoiar o genocídio, devemos trabalhar na base para a aplicação da resolução da Assembleia Geral que pede um embargo de armas a Israel, a fim de interromper os seus massacres em Gaza, no Irão e no Líbano. Participar no movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções, que está a alcançar cada vez mais sucesso. Fazer lóbi no Congresso para aprovar uma Resolução de Poderes de Guerra que ponha fim à agressão dos EUA ao Irão e o fim do apoio militar dos EUA a Israel. Escrever artigos de opinião e cartas às redações expressando a nossa objeção aos genocídios de Israel e à agressão militar dos EUA. E apoiar mobilizações de massas para parar os assassinatos e exigir responsabilidades aos perpetradores e seus cúmplices.
Fonte: The Failure to Stop Israel’s Genocide in Gaza Has Allowed It to Expand Into Lebanon | Truthout publicado e acedido em 13.04.2026
Foto: https://mltoday.com/wp-content/uploads/2026/04/funeral-israeli-strike-lebanon-12-march-2026-afp.jpg
Tradução de TAM
