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Mesmo que Trump cumprisse a sua ameaça de destruir a "civilização" iraniana por meio de mais bombardeamentos, o Irão seria capaz de lançar muitos mísseis e drones antes do seu regime cair — assumindo que ele caísse. Apenas alguns ataques bem-sucedidos poderiam paralisar as infraestruturas de petróleo e gás da região durante anos, senão décadas, lançando o mundo, e os Estados Unidos, numa crise económica prolongada.
Um artigo de opinião, do neoconservador Robert Kagan na revista pró-guerra Atlantic, confirma essa opinião. Kagan, que pressionou o governo Bush/Cheney para a guerra contra o Iraque, assume que os EUA perderam a sua guerra contra o Irão:
Xeque-mate no Irão – Washington não pode reverter ou controlar as consequências de perder esta guerra.(arquivado) – Atlantic
É difícil lembrarmo-nos de um momento em que os Estados Unidos tenham sofrido uma derrota total num conflito, um revés tão decisivo que a perda estratégica não pudesse ser nem reparada nem ignorada.
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A derrota no confronto atual com o Irão será de caráter totalmente diferente. Não pode ser reparada nem ignorada. Não haverá regresso ao statu quo ante, nem triunfo americano final que desfaça ou supere o dano causado. O Estreito de Ormuz nunca mais será "aberto", como já foi. Com o controle do estreito, o Irão emerge como o principal ator da região e um dos principais do mundo. Os papéis da China e da Rússia, como aliados do Irão, ficam fortalecidos; o papel dos Estados Unidos fica substancialmente diminuído. Longe de demonstrar a habilidade americana, como os apoiantes da guerra afirmaram repetidamente, o conflito revelou uma América pouco confiável e incapaz de terminar o que começou. Isso vai desencadear uma reação em cadeia ao redor do mundo, enquanto amigos e inimigos se ajustam ao fracasso da América.
Kagan reconhece que os EUA não têm saída para o seu dilema:
Mesmo que Trump cumprisse a sua ameaça de destruir a "civilização" iraniana por meio de mais bombardeamentos, o Irão seria capaz de lançar muitos mísseis e drones antes do seu regime cair — assumindo que ele caísse. Apenas alguns ataques bem-sucedidos poderiam paralisar as infraestruturas de petróleo e gás da região durante anos, senão décadas, lançando o mundo, e os Estados Unidos, numa crise económica prolongada. Mesmo que Trump quisesse bombardear o Irão como parte de uma estratégia de saída — parecendo duro para mascarar a sua retirada — ele não o pode fazer sem arriscar essa catástrofe
Se isso não é xeque-mate, pouco falta.
Kagan está a considerar a alternativa, uma guerra total contra o Irão, mas rejeita-a como um caminho pior que provavelmente levará a um fracasso ainda maior:
A menos que os EUA estejam preparados para conduzir uma guerra terrestre e naval em larga escala para remover o atual regime iraniano, e então ocupar o Irão até que um novo governo possa assumir o poder; a menos que esteja disposto a arriscar a perda de navios de guerra que escoltam petroleiros através de um estreito contestado; a menos que esteja disposto a aceitar o devastador dano de longo prazo às capacidades produtivas da região que provavelmente resultará da retaliação iraniana — desistir agora pode parecer a opção menos má. Do ponto de vista político, Trump pode muito bem sentir que tem mais hipóteses de enfrentar a derrota do que de sobreviver a uma guerra muito maior, longa e cara, que ainda pode terminar em fracasso.
A derrota para os Estados Unidos, portanto, não é apenas possível, mas provável. Assim se vê como é a derrota.
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O novo statu quo no estreito também provocará uma mudança substancial no poder relativo e na influência, tanto regional como global. Na região, os Estados Unidos ter-se-ão mostrado um tigre de papel, forçando o Golfo e outros países árabes a acomodar o Irão. Como escreveram recentemente os estudiosos do Irão Reuel Gerecht e Ray Takeyh, "As economias árabes do Golfo foram construídas sob o guarda-chuva da hegemonia americana. Acabando isso — e a liberdade de navegação que vem associada — e os Estados do Golfo inevitavelmente irão implorar a Teerão."
Eles não serão os únicos. Todas as nações que dependem da energia do Golfo terão de negociar os seus próprios acordos com o Irão. Que escolha terão eles ?
Kagan acredita que a perda da guerra contra o Irão terá implicações muito mais amplas para a posição dos EUA em todo o mundo:
O ajustamento global a um mundo pós-americano está a acelerar. A posição outrora dominante dos Estados Unidos no Golfo é apenas a primeira de muitas baixas.
No final desta semana, o presidente dos EUA, Donald Trump, deve visitar a China. Uma previsão dessa visita da administração, publicada no Financial Times (arquivado), finge que os EUA ainda podem usar a sua guerra para pressionar o mundo à sua volta:
"Eu esperaria que o presidente exercesse pressão", disse um funcionário dos EUA aos repórteres numa conferência de imprensa. Disse que Trump retomaria as discussões anteriores com Xi sobre o apoio da China ao Irão e à Rússia, incluindo o fornecimento de componentes de dupla utilização e potenciais exportações de armas”. Espero que essa conversa continue. Acho que vocês viram algumas ações, ou seja, sanções, partindo do lado dos EUA apenas nos últimos dias, que tenho a certeza de que farão parte dessa conversa", acrescentou o funcionário.
O Departamento de Estado impôs na sexta-feira sanções a três empresas chinesas de satélites por fornecerem imagens e outros serviços ao Irão que o ajudaram a conduzir ataques militares contra forças dos EUA no Médio Oriente. O Tesouro também sancionou a Yushita Shanghai International Trade por ajudar o Irão a importar sistemas portáteis de defesa aérea [Manpads] da China.
Trump ainda não reconheceu que, depois de perder a guerra, o jogo das sanções também acabou. Certamente não é do interesse dos chineses, nem de qualquer outro, ajudar os EUA a recuperar a posição hegemónica que agora perderam no Golfo.
Fonte: War on Iran: Neocon Grandee Concedes Defeat - MLToday
Tradução de TAM